
Aos seis anos me apaixonei.
Quando o vendedor de livros se foi, ficaram em cima da mesinha da sala de visitas vários livros de histórias, mapas do mundo e o objeto de minha paixão: toda a coleção de Monteiro Lobato. O Sítio do Picapau Amarelo.
Livros grandes, pesados, as capas duras, coloridas de encher os olhos. À noite, levei para minha pequena cama de menina, cor de laranja, o primeiro volume da coleção. Toquei-o com reverência, acariciei o aveludado das páginas, aspirei o perfume seco do papel estalando de novo. Antecipava o prazer do mergulho na história. Adormeci sobre suas páginas, o ursinho preferido jogado num canto, até que minha mãe veio apagar a luz. Não deixei que ela pusesse o livro na cabeceira, dormi abraçada a ele.
Mamei a coleção inteira, volume após volume, com a gana do bebê que devora o seio da mãe. À ela, seguiu-se uma outra coleção, de lendas brasileiras. As ilustrações amedrontavam minha fértil mente infantil, mas ainda assim eu adormecia na companhia do curupira, da mula sem cabeça e do boi-tatá.
Aos 10 anos, apaixonei-me novamente.
Foi meu pai quem me apresentou Richard Bach. Voamos juntos nas sábias asas de Fernão Capelo Gaivota, pousamos em campos de trigo no interior dos Estados Unidos e eu tomei gosto por velhos biplanos.
A biblioteca de meu pai era o jardim onde brincava, passando tardes tocando com as pontas dos dedos as lombadas de tomos antigos, em busca da nova aventura, do novo companheiro de travesseiro. Dormi com Agatha Christie, Taylor Caldwell, Guy de Maupassant e Charles Dickens. Sonhei com o velho pescador e seu peixe enorme, brinquei com os garotos da Rua Paulo, chorei quando Caninos Brancos se separou de sua mãe e torci para que Marianne pudesse se vingar de Willoughby.
Quanto ao meu voraz hábito de leitura, quando adolescente, meu pai comentava que mais fácil seria sustentar um burro à pão-de-ló que financiar minha gana por livros. O que era dito com orgulho, claro.
Deitada do lado direito, braço enfiado sob o travesseiro, livro apoiado na cama, não concebo como dormem aqueles que se deitam e apagam a luz. É assim que adormecia quando criança e quando adolescente, mesmo quando chegava tarde dos bailinhos, e agora, adulta, ainda que tenha ido me deitar às 3 da manhã. E muitas foram também as noites roubadas do sono, quando eu me prometia: só mais uma página, para terminar virando a última ao clarear do dia.
Ler é ato físico: o livro é extensão dos meus braços, esticando-os até onde a imaginação encontra a letra. As palavras impressas colam-se em minhas retinas e o ritmo do autor, suas pausas, pontos, vírgulas, são minha respiração.
Assim adormecemos, a história e eu, abraçadas como amantes, e que amante promíscua devo ser, pois não raro tenho dois ou três livros debaixo dos lençóis.
E se houve uma noite em minha vida em que não li algumas páginas antes de dormir, foi porque não me deitei. Ou me deitei, o prazer do corpo saciado sobrepujando o da mente inquieta.
Este post faz parte do projeto Vou de Coletivo
Tema de outubro: Hábitos de Leitura





57 Comments
Boa noite!!
O legal dessa blogagem e a interação e entre as pessoas, e a forma de como vamos conhecendo cada uma delas,parabéns pela participação
Boas energias
Mari
Amo o livro do Richard Back, Fernando Capelo Gaivota. Linda historia de querer vencer na vida.
Nos leva para os desafios de vencer a vida.
Parabéns pela postagem.
Eu também estou participando. Blog Uma Interação de Amigos.
Amo a leitura.
Não consigo emprestar. Amo os meus livros. Mas infelizmente tenho a mania de sublinhar tudo. Já que são meus. Tudo o que é interessante.
Escrevo muitas coisas sobre estas páginas que sublinho.
Tenho muitos. Leio a noite.
Mas já li muito no ônibus também, principalmente, quando estudava, ou fazia curso. Não tinha tempo. Então aproveitava todos os momentos.
Mas estou lendo de tudo. Ler abre caminhos para o nosso conhecimento.
Venha me visitar e compartilhar este momento.
Com muito carinho
Sandra
Que delicadeza esse texto, e a leitura é mesmo um prazer e não há lugar mais propício ao prazer que a íntimidade da cama.
No meu caso não os levo (livros) para a cama, mas sim estão sempre comigo.
Lindo texto.
Mari, também adoro blogagens coletivas! É uma ótima oportunidade para conhecer novos espaços! Obrigada pela visita. Beijos!
Sandra, obrigada pela visita! Também tenho esse hábito de sublinhar e escrever notinhas nos meus livros… Beijos!
Giuliano, a cama é mesmo um lugar de múltiplos prazeres! ;D Beijos e obrigada pela visita!
Ana,
estava com saudade…
lindo texto!
beijinho
Ju, passo sempre no seu blog a adorei as tiarinhas! Beijos pra você a pra Regina!
Vc sabe que ler me ajuda a dormir melhor também? Mesmo numa posição não tão cômoda eu ainda insisto. É como uma oração.
Também gosto de Richad Bach, mas demorei mais para apreciá-lo, só depois dos 20.
Também estou participando! Bjão!
Ana Paula
É sempre um prazer ler os seus textos (faz favor de escrever mais no blogue!) e, especialmente, partilhar um gosto tão especial, como é o da leitura. Compreendo cada palavra sua!
Bjs
Ai Aninha,
que texto liiiindo! Adorei menina…vai escrever bem lá em casa hein!rsrs
Gostou da idéia de ler em voz alta é?rsrs
Eu sou muito distraída e parece que lendo em voz alta minha mente grava mais…rs
Um grande beijo e obrigada pela visita minha linda!
Oi Nanda! Sempre bom te ver por aqui. Li Richard Bach há muitos anos, papai adorava, e por isso guardei os livros, pois me fazem lembrar dele. Acho que vou reler qualquer dia, tenho a impressão que será uma viagem no tempo… Já passo lá no Múltiplas pra conferir sua participação! beijos!
Oi Ana,
Que belo texto esse seu…!! Gostoso de se ler e com veias poéticas, também…
Em casa havia uma biblioteca satisfatória, cheia de livros e enciclopédias em suas prateleiras. Deveria ter por volta de uns 600 exemplares.
E como tocou no assunto, toda a coleção de Monteiro Lobato, o meu irmão mais velho leu aos 07 anos de idade, acredite, os seus trinta e poucos volumes. Sim, ele é um caso à parte, dentre muitos…
Atualmente, grande parte dela se encontra na casa de meu outro irmão, juntos aos outros livros dele.
Enfim, ler o seu texto me trouxe boas recordações…
Beijos,
Ana Lúcia.
Teresa, seus textos também são deliciosos, passo sempre por sua “casa”! rs Pretendo me dedicar mais ao blog daqui pra frente, juro. Ando tão preguiçosa, que horror… Beijos, querida!
Serena, adorei a idéia de ler em voz alta! rs Não sei o que os vizinhos vão pensar! Será que vai ter cabo de vassoura batendo nas paredes? rsrsr Beijos e obrigada pelo carinho!
Sim, esqueci de um detalhe, pois em se tratando desse meu irmão, gostaria de lembrar…, qual seja, cada volume de Monteiro Lobato, havia umas não sei tantas estórias… Se não me falhe a memória, umas 10 ou 20, não sei mais.
Lembrei-me dele por meio desse seu post, sendo que ele é o geniozinho de casa e alguém muito especial, por sinal (não mora mais conosco). Sempre leu muito, de se perder a conta, além de primeiro aluno, exceto na faculdade, por ter cursado 03 ao mesmo tempo.
Beijos, espero que entenda essas recordações,
Ana Lúcia.
Ana Lúcia, acredito, sim, que seu irmão devorou os 30 poucos volumes de Monteiro Lobato aos 7! rs Comigo foi aos 6… =) Espero que as recordações que o texto te trouxe sejam doces e não tristes… Um beijo bem grande!
Ana, que gracinha esse texto. Eu me apaixonei aos 10 anos, quando li Meu pé de laranja lima. Depois dele, eu queria ler todos os livros do mundo, esperando me emocionar tanto quanto me emocionei lendo a história do Zezé… rs
Ana, os livros estão sendo vendido somente pelo site da editora, aquele livrinho lá no blog é o link. Mas, se você quiser e estiver em BH, podemos combinar de eu entregar um para você. Devo receber daqui duas semanas alguns exemplares em casa.
Qualquer coisa me mande um email: sabrina.davanzo@gmail.com
Beijos, Ana!
Oi Ana Paula! Obrigada pela visita!
Eu já conhecia o seu blog, acho que pelo da Paula (canetas coloridas), e já era até seguidora, mesmo que silenciosa! rs!
Quase não acreditei que vc faz caras e bocas tb! É uma mania dificil de perceber, eu acho, pq a gente está tão perdidas nas palavras que esquece do mundo ao redor e dos movimentos normais do corpo!
bjs
Oi, Ana! Belém é uma cidade que vale a pena conhecer. Quero voltar de uma outra vez como turista apenas para percorrer a cidade inteira conhecendo as suas ‘entrelinhas’. Nesta viagem a minha visão é dos acervos, bibliotecas e locais de pesquisa em geral. Ainda não tive tempo de fazer ‘turismo’ na cidade, mas amanhã é sábado e pretendo sair de bobeira pela cidade.
E Bach é tudo de muito bom e ler é uma viagem inexplicável…
Um beijo
Pôxa, até hoje lembro do livro Fernão Capelo Gaivota, sensacional.
Praticamente aprendi a Ler com os livros do Monteiro Lobato, também tinha a coleção que hoje esta com minha neta.
Muito legal.
Parabéns pelo Blog.
Abraços
Aí, aí, Ana, é por essa e outras que quando crescer quero ser (escrever) igualinha a você!!! rs
Minha relação com os livros começou meio por imposição da escola. Confesso que não sinto muito orgulho de ter descoberto os livros por “livre e espontânea pressão”, quando a “chata” da professora de português me vez ler “A ilha perdida” da coleção Vaga-lume (não lembro o nome do autor). Hoje agradeço a essa professora má (prima da minha mãe – outra Ana.. rs) que me apresentou o fantástico mundo das letras… “Antes tarde do que nunca”, e olhe que não foi por falta de incentivo da parte dos meus pais, mas sempre gostei mais de música e gibis…
Hoje, porém, não consigo viver sem um livro. Estou lendo O mundo de Sofia pela segunda vez, só pra relembrar os meus 15 anos, quando ganhei esse livro de presente e A paixão segundo G.H. de Clarice Lispector está na fila… rs…
Adoro, adoro, adoro!!
Melhor que um livro só dois… rs
Como escreveu Emily Dickinson: “Não há melhor fragata que um livro para nos levar a terras distantes”
Beijo grande!
Aninha
Sempre venho aqui, mas nem sempre comento…rsrsr
Minha vida tá uma correiria louca amiga!! Saudades de nossos bate-papos…
Bjkas e saudade
Bem escrita, com lembranças que vão caminhando no tempo, contando esse amor antigo.
beijos
“E se houve uma noite em minha vida em que não li algumas páginas antes de dormir, foi porque não me deitei.”
TEXTO LINDÍSSIMO!
Um beijo,
doce de lira
Que lindo!
Deve ser maravilhoso ter umas destas bibliotecas em casa, do pai ou do avô… Infelizmente, não tive. Os livros que tenho são conquistados a cada salário, suado, e por isso tenho ciúme dos meus.
Deliciosa a maneira como você escreve, das suas viagens na suas leituras, cada detalhe! Adorei seu post!
Desculpe o atraso em comentar, mas é que durante a semana, tempo é raro! Belíssima participação na Blogagem.
Bjs, querida, e bom domingo!
O Sítio do Picapau Amarelo… que saudades!
É ele: Monteiro Lobato é o culpado pelo meu vício! rsrs
Abração e muito obrigado pela participação.
Murilo
Ô menina Ana Paula, só mesmo quem um dia já foi “pego” por Lobato e morou no Sitio, pode ficar tão entusiasta dos livros, das vírgulas,sem falar das reticências tão reveladoras e providenciais…
De verdade, espero o dia de ter um livro seu na minha mesinha de cabeceira, desses para serem lidos, grifados, acariciados, transformados em “presença indispensável..”
beijo grande.
Sabrina, eu estou em BH! Vou te mandar um email, quem sabe nos encontramos! Beijos!
Bia, faço caras e bocas não só lendo, mas vendo filmes também! rs Deve ser bem divertido pra quem olha… A gente esquece do mundo, né! Beijos!
Cris, obrigada pela visita! Espero que tenha tido tempo de passear por Belém. Viajar é maravilho, na vida real ou através dos livros! Beijos!
Olá, Guilherme, obrigada pela visita! Acho lindo quando coleções como a de Monteiro Lobato vão passado por gerações. A minha hoje está com meu sobrinho. =) Beijos!
Aninha, acho que os professores, pelo menos na “minha época” escolhiam muito mal os livros. Mas adorei a Ilha Perdida! rsrsrs Que bom que a escola não te deixou traumatizada e mais tarde você tomou gosto. =) Beijos!
Mari, se a vida tá corrida é sinal que está boa! =) Saudades mesmo, amiga! Beijos!
Angela, obrigada pela visita! Beijos!
Renata, obrigada pela visita e pelo carinho! Beijos!
Nade, foi muito bom crescer no meio de livros, tive muita sorte! =) Beijos, querida, boa semana!
Murilo, descobrimos o culpado pelo nosso vício: Monteiro Lobato! rsrsrs E, pela participação, eu que agradeço pela oportunidade de fazer parte do Vou de Coletivo! =) Beijos!
Ah, Regina… sabe que talvez esse livro não demore tanto assim? Quem sabe? ;D Beijos, querida!
Eu também amo ler antes de dormir! Se não leio, parece que não foi tão bom, rs… Mas o marido diz que é um hábito que me faz dormir menos, porque eu simplesmente não consigo parar de ler cedo, rs. Beijos!
Olá, Ana Paula! Seu texto é perfeito… viajei nas páginas dos livros que citou, devido à grande sensibilidade e criatividade de sua escrita.
Estou seguindo o blog…
Abraços!
Fê, eu não entendo deitar pra dormir sem um livro, fica faltando alguma coisa, não é? Mas se o livro é bom, ai, ai, ai… lá se vai uma noite de sono! rs Beijos, querida!
Oi, Bia! Obrigada pelo carinho e por seguir o blog! Também estou te seguindo. Amei sua mania de abraçar os livros. Eu tenho um carinho todo especial pelos meus, afinal alguns me acompanharam pela vida inteira! =) Beijos!
Lindo, lindo, lindo, lindo!
Amiga, que delícia de texto e que gostoso, poder sentir a tua emoção com os livros, tão parecida com a minha!
Os livros são a riqueza de nossa mente que necessita do aprendizado constante e nos levam aos mais diversos mundos da fantasia, da imaginação e da emoção diferente que cada leitor sente.
Grande companheiro é um livro e grande amigo tb, que por muitas vezes nos fazem adormecer, na companhia maravilhosa das páginas cheias de magia, entusiasmo e amor.
Essa noite mesmo, passei abraçada com Chico Buarque (nada mal, hein? rs).
Amei o texto, amiga. Parabéns!
Beijos
Muito, mesmo muito bom! Gostei muito da sua participação. Parabéns!
Oi Ana Filipa! Passei lá por sua casa hoje. Estimo melhoras ao seu pequeno! Beijos!
Fla, obrigada pelo comentário e pelo carinho! Livros são grandes companheiros, mesmo: nos ensinam, nos emocionam, nos acalmam… Beijos, querida!
Ana Paula, adorei o jeito de como vc descreveu sua paixão pelos livros e quando tudo começou, estava lendo e quando vi tinha acabado o post, fiquei com gostinho de quero ler mais…por isso vou xeretar umas postagens anteriores.
e bela participação no coletivo.
beijos
Acredito ser uma das melhores paixões além do amor às pessoas.
Valeu ter vindo aqui.
Bjs
Clara, obrigada pela visita! Tem umas coisas interessantes no arquivo, dê uma volta por lá! =) Beijos!
Jota, obrigada pela visita! Infelizmente, a leitura não é uma paixão tão popular… gostaria de ver mais pessoas lendo! =) Beijos!
Consegui pegar esse coletivo, e estou danado aquelas espiadinhas básicas rsrs Achei muito linda sua maneira de falar com propriedade sobre os livros que te encantaram.Parabéns.
Gostei também do blog , vou ficar por aqui lendo…
Abraços
Lis, obrigada pela visita! Passeie pelo blog, depois venha me contar se gostou! =) Beijos!
Ana,, Partilhamos de momentos e conquistas semelhantes no mundo da leitura. Fico feliz po isso!
A propósito, o parágrafo 10 tbm pode ser colocado sob a forma de versos. Quanta poeticidade!Suspesuspeita para falar de poesia… KAF
Ana, Partilhamos de momentos e conquistas semelhantes no mundo da leitura. Fico feliz por isso!
A propósito, o parágrafo 10 tbm pode ser colocado sob a forma de versos. Quanta poeticidade!
Suspeita para falar de poesia…
Abraços,
KAF
KAF, vou dar uma olhada no parágrafo 10 e ver o que escrevi lá! rsrs Sabe que nunca consegui escrever uma poesia, ou pelo menos nada digno desse nome? É até uma coisa engraçada, acho que escrevo crônicas melhor do que outros tipos de texto. Mas o que queria escrever mesmo eram contos… Ai, como somos insatisfeitas! =) Beijos!
Oi Ana Paula,
Amei esse texto! Lindíssimo! Amei o seu site e agora ele irá para minha lista de sites preferidos. Muito obrigada pelo recadinho no meu blog, fiquei muito orgulhosa de tê-lo como o primeiro comentário do post. Fica com Deus e até a próxima crônica.
Beijos…