Como se escreve um livro?

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Tenho pensado em São Francisco do Sul estes dias. Estive por lá coisa de um ano atrás e, vez em quando, São Francisco deixa meu coração – onde mora – para me vir à mente, como um consolo, um alívio em saber que se um dia não houver mais nada, haverá São Francisco do Sul. Não sei por que.

Ou ainda…

Faz tempo perdi a sensação de pertencer. Como quando se coloca na mesa um prato perfeito e alguém diz, sim, delicioso, mas falta… Algo salta aos olhos quando tento me encaixar onde deveria estar, onde já estive, e me separa do entorno. Estou solta e sozinha num espaço que foi, pouco tempo atrás, uma oficina onde as palavras eram as ferramentas.

Como se escreve um livro? Dizem que não há regras, ou ainda, há tantas maneiras de escrever quanto há escritores. Não existe uma receita. E quisera eu houvesse uma.

Como se escreve um livro? Eu acho que sei. Primeiro, a gente começa. Então recheia. E coloca um ponto final.

Escrever – um livro, um conto, uma mensagem de celular ou até uma lista de compras, que seja – me colocaria de volta onde preciso estar. Mas falta algo, como a pimenta naquele prato ou um pouco mais de sal naquele outro.

Sonhei que estava grávida noite passada. Uma sensação de horror tomou conta de mim, como sempre acontece, sendo esse um sonho recorrente. E o alívio ao acordar. Aí está: é preciso estar pronta para dar à luz.

Preciso me reencontrar com Clara. Relembrar como ela é, como pensa, o que ela sente, e isso nem sempre é fácil, porque em Clara há dor, questionamentos e infinitas perguntas sem respostas e todas as possibilidades do mundo pela frente. Mas uma vez que a concebi, ela é de minha responsabilidade. Se ela veio até mim de alguma forma, é porque precisa que sua história seja contada.

Para contar a história de Clara preciso de São Francisco. De suas ruas carregadas de história, das águas inquietas da Baia de Babitonga, ora pacificamente azuladas, ora desfiguradas pelo cinza que se derrama lá de cima, e do mar, do mar, que se abre infinito para encontrar o céu, como minha alma se abre todos os dias sem que ninguém perceba.

Não posso estar em São Francisco. Desejo então que, de alguma forma, ela esteja em mim, nas imagens que capturei com meus olhos, como as redes dos pescadores capturavam o alimento do dia, quando lá estive e pude ver. Que eu possa ver o mar onde ele não está e sentir seu hálito salgado me soprar palavras, quando eu em vão procurar por elas. Que o mar possa estar dentro, como está dentro um mundo inteiro que, quisera eu, pudesse mostrar.

Ps – Clara é a personagem de um romance começado e abandonado, porque eu estava ocupada demais tentando ser quem não sou.

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Feliz Natal, Feliz Retorno

O último post que escrevi foi há 2 meses. Não foi apenas o último post. Confesso: foi o último texto. Fora anotações e pesquisa para o romance, e alguns esboços de capítulos, eu nada escrevi. Na verdade, nem mesmo voltei aqui. Foi como cobrir os móveis com lençois, fechar a casa e partir.

Há uma frase que está presente na maioria das coisas que escrevo: a Vida guarda surpresas. Tenho uma crença profunda nos fluxos, na sabedoria dos ciclos, que se abrem e se esgotam em seu próprio tempo, sem necessariamente obedecer aos meses do calendário.

Quando me preparava para a dedicação exclusiva  a Porto do Acaso, meu primeiro romance, a Vida decidiu que não era a hora e nos presenteou, meu marido e eu, com grandes e longamente desejadas mudanças.

Fecho 2009 iniciando uma nova história: de mais prosperidade, de mais qualidade de vida, de mais aventuras há muito desejadas e, acredito, profundamente merecidas. Não tive oportunidade de parar e escrever – que é atividade solitária, introspectiva – mas de apenas viver, mergulhando até molhar os cabelos em cada nova e surpreendente experiência. O momento de parar e relatá-las há de chegar em breve.

Dito isso, me deixo contagiar pelos votos dos amigos leitores e desejo que, assim como a Vida me surpreendeu no fim de 2009 com presentes embrulhados nas cores dos meus sonhos, Ela venha também trazer a vocês tudo aquilo que está em seus corações.

Alegria, Amor, Luz. Para todos, sempre.

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Eu explico

Nunca dormi numa cama tão perto do mar. O quarto é quase uma extensão da praia, é como se a cama estivesse estendida na areia. A brisa marinha sopra portas da varanda adentro, trazendo a cadência das ondas, tão evidente, tão constante, que ainda não sei se embala ou estorva. O mar está dentro do quarto. O mar está dentro.

Esse pequeno trecho é parte de um texto que escrevi viajando por Santa Catarina. Republico-o porque, se juntar tudo o que escrevi na vida, é provável que não encontre nada de que goste mais. Amo esse pequeno parágrafo.

Quem escreve sabe que o escritor espera se esconder no meio de suas palavras, são elas seu escudo de proteção contra a nudez da própria  alma. Ele finge falar do outro, dá a ele um nome, batiza-o personagem, apenas para deixar escapar um tanto de si a cada linha, cada pausa, cada ponto final. No jogo de claro-escuro da letra preta e do papel branco, o escritor se revela.

Por isso gosto tanto desse pedacinho de texto aí em cima. Aí estou eu, nas portas abertas de uma larga varanda, numa brisa que invade um quarto, na presença absoluta do mar, no divagar que se estica até pousar na linha do horizonte.

Para Natalie Goldman, minha mestra, ao escritor é permitido escrever sobre qualquer coisa. Sobre uma xícara com um resto de café velho esquecida em cima da mesa. Sobre uma torneira que pinga. Sobre um copo que se esvazia ou uma veia que se abre. Aliás, é para isso que o escritor serve, para viver duas vezes, quando captura os detalhes que passam a todos despercebidos e depois, quando os registra.

Mas NG diz que escrevemos de verdade quando falamos sobre nossa obsessão. É tão fácil escrever sobre mar. O mar está dentro.

Divaguei.

Não era nada disso que queria dizer.

Há alguns anos, tive uma idéia para uma história. Esteve guardada desde então. Durante esse tempo, às vezes tirava-a da caixinha, flertávamos um pouco e combinávamos, eu e a idéia, que iríamos nos encontrar no futuro. Quando estivéssemos prontas uma para a outra. Acredito que o futuro chegou. Amadurecemos, eu e a idéia.

Sempre prometi a mim mesma que, dia desses, iria escrever algo mais extenso que uma crônica ou um post para o blog. O maior texto que escrevi até hoje foi um conto – bem ruinzinho – de apenas 25 páginas.

Achei que devia contar a vocês, já que têm a paciência de me visitar, me ler e ainda a delicadeza de me deixar algumas palavras. Achei que devia contar que estou trabalhando num texto bem longo. Naquela idéia que estava guardada.

E é possível que este blog fique um pouco abandonado durante os próximos meses. Não completamente esquecido, já que não deixarei de participar das coletivas, que adoro, e de postar uma coisinha ou outra.

Mas tenham paciência comigo quando a poeira começar a juntar por aqui. Vocês já sabem porque.

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Reflexões

Reflexões, de James Emanuel,  é o nome do blog que devo visitar e analizar como tarefa da BlogGincana de outubro. Se você ainda não conhece essa divertida forma de interagir com vários outros blogs e autores, clique aqui para saber mais.

Vamos às tarefas:

Escolhi a primeira postagem do blog, a letra da linda Inquietação, de Ary Barroso. O tema com certeza me agrada muitíssimo, pois adoro os sambas e marchinhas não só de Ary Barroso, mas também de Lamartine Babo, Braguinha e outros.

Não conhecia o Reflexões, mas me agradou muito a visita.

O blog é recheado de poemas e passagens de textos de escritores consagrados. Há também posts sobre cinema e arte.  Até aí, nenhuma novidade, mas o bacana é que o autor deixa sempre, no final do post, um link para que você saiba mais sobre o objeto da postagem. Uma ótima forma de explorar e conhecer novos escritores e poetas. Há vários que eu não conhecia e vou aproveitar a oportunidade. Pretendo voltar sempre, assim como explorar os arquivos! =)

Como imagem, escolho a ilustração Europa e o Touro, do post sobre pintura vermelha em cerâmica.

Este post faz parte da BlogGincana de Outubro, promovida por Expresso da Linha e Varal de Idéias.

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Cento e poucos contos

katherine+Mansfield

Nascida em 1888, Katherine Mansfield viveu uma vida breve, turbulenta e triste.

Em 1908, mudou-se de sua Nova Zelândia natal para a Inglaterra e entregou-se à boemia, como era comum aos artistas da época. Em 1911, publicou seu primeiro livro, uma coleção de contos, In a German Pension. Contraiu gonorréia por volta desta época e sofreria com dores de artrite pelo resto da vida. Desencorajada pela falta de sucesso do livro, mandou uma história leve para uma revista chamada Rhythm. A história foi rejeitada pelo editor, John Middleton Murry, que pediu algo mais sombrio. Katherine respondeu com “The Woman at the Store”, uma história de assassinato e doença mental que Murry chamou de “de longe a melhor história mandada à Rhythm.”

Murry visitou Katherine no seu apartamento onde ela lhe serviu chá em tigelas porque não possuía xícaras. Atraída por ele, o convidou a se mudar para o quarto de hóspedes logo após sua publicação e, em seguida, eles começaram seu relacionamento conturbado que incluíu casamento em 1918. Se mudaram diversas vezes e frequentemente viveram separados. Aparentemente ambos não acreditavam em uniões estáveis.

Sua saúde ficou muito debilitada quando contraiu tuberculose em 1917. Foi enquanto combatia essa doença em spas pela Europa afora, sofrendo uma hemorragia séria em 1918, que ela começou a escrever os trabalhos pelos quais seria melhor conhecida.

Katherine sofreu uma hemorragia pulmonar fatal em janeiro de 1923, após subir uma escada correndo para mostrar a Murry quão bem estava.

Sobre ela, Virginia Woolf disse: “A única escrita que eu invejei”.

Katherine Mansfield, esta escritora quase desconhecida dos brasileiros e que jamais publicou um romance, é, na minha humilde e leiga opinião, uma das maiores contistas que já existiu.

Rompendo com as regras tradicionais da escrita, em seus contos a trama é inexiste ou secundária. Prevalece sempre o momento, de simplicidade ingênua ou dramaticidade desconcertante. O poder de suas histórias está na atmosfera, na ambiência, no instante capturado de uma vida e traduzido com vigor e sentimento.

Ela jamais escrevia “sobre”. Mostrava ou sugeria. In a German Pension, por exemplo, ela declara seu desprezo pelos alemães sem usar essa palavra, ou outra parecida, uma única vez. Há apenas um grupo de pessoas reunidas ao redor de um almoço. No entanto, a antipatia, o antagonismo, pairam no ambiente. E assim é, quando ela fala de tristeza, dor, solidão ou contentamento.

Apenas o escritor de imenso talento é capaz de dominar o texto dessa forma . Mostrar sem dizer, sugerir sem contar.

E, assim como Virgínia Woolf, é uma escrita que também invejo.

sabino

Este post faz parte da blogagem coletiva Vida de Escritor, promovida por Fio de Ariadne

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No que você está pensando agora?

Todos os dia o Facebook me pergunta: no que você está pensando agora?

Pois me preocupa justamente aquilo em que não estou pensando. O que não está em minha cabeça. Tudo o que não estou fazendo.

Mas deveria.

As prioridades andam enfiadas debaixo de pilhas de banalidade, e eu as coloco lá para que possa fingir que  nao me preocupo com elas. O que é vital, e deveria merecer toda minha concentração, anda esquecido debaixo do tapete da preguiça.

Eu adio: planos, projetos, começos. Penso em qual filme quero assistir, se tomo um banho agora ou antes de deitar, se como um sanduíche ou tomo uma sopa na hora do lanche. Dou a volta na minha própria mente, distraindo-a com as maiores bobagens, e estou ficando boa nisso. Divago. E, quando a estratégia falha, agarro um livro.

Qualquer coisa para não ter que me concentrar e trabalhar, o que, no meu caso, significa escrever.

E tenho certeza que não vou empurrando com a barriga sozinha. Devo estar na companhia de centenas de outros que juram que amanhã vai.

Se o Facebook tem um pergunta, eu tenho outra: o que não está passando pela sua cabeça? O que anda esquecido, como se não fosse com você? Por que deixamos de fazer o que mais queremos e acabamos convencidos de que há algo a ser feito antes? O que atravessa na frente dos nossos sonhos mais caros?

A verdade é que não podemos com a Vida. Tudo aquilo que procrastinamos, estará nos esperando qualquer dia, ali na esquina. A Vida pega a gente na curva. E a genta acaba descobrindo que, se inventamos de sonhar, criamos junto o compromisso de realizar.

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Livros de Travesseiro

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Aos seis anos me apaixonei.

Quando o vendedor de livros se foi, ficaram em cima da mesinha da sala de visitas vários livros de histórias, mapas do mundo e o objeto de minha paixão: toda a coleção de Monteiro Lobato. O Sítio do Picapau Amarelo.

Livros grandes, pesados, as capas duras, coloridas de encher os olhos. À noite, levei para minha pequena cama de menina, cor de laranja, o primeiro volume da coleção. Toquei-o com reverência, acariciei o aveludado das páginas, aspirei o perfume seco do papel estalando de novo. Antecipava o prazer do mergulho na história. Adormeci sobre suas páginas, o ursinho preferido jogado num canto, até que minha mãe veio apagar a luz. Não deixei que ela pusesse o livro na cabeceira, dormi abraçada a ele.

Mamei a coleção inteira, volume após volume, com a gana do bebê que devora o seio da mãe. À ela, seguiu-se uma outra coleção, de lendas brasileiras. As ilustrações amedrontavam minha fértil mente infantil, mas ainda assim eu adormecia na companhia do curupira, da mula sem cabeça e do boi-tatá.

Aos 10 anos, apaixonei-me novamente.

Foi meu pai quem me apresentou Richard Bach. Voamos juntos nas  sábias asas de Fernão Capelo Gaivota, pousamos em campos de trigo no interior dos Estados Unidos e eu tomei gosto por velhos biplanos.

A biblioteca de meu pai era o jardim onde brincava, passando tardes tocando com as pontas dos dedos as lombadas de tomos antigos, em busca da nova aventura, do novo companheiro de travesseiro. Dormi com Agatha Christie, Taylor Caldwell, Guy de Maupassant e Charles Dickens. Sonhei com o velho pescador e seu peixe enorme, brinquei com os garotos da Rua Paulo, chorei quando Caninos Brancos se separou de sua mãe e torci para que Marianne pudesse se vingar de Willoughby.

Quanto ao meu voraz hábito de leitura, quando adolescente, meu pai comentava que mais fácil seria sustentar um burro à pão-de-ló que financiar minha gana por livros. O que era dito com orgulho, claro.

Deitada do lado direito, braço enfiado sob o travesseiro, livro apoiado na cama, não concebo como dormem aqueles que se deitam e apagam a luz. É assim que adormecia quando criança e quando adolescente, mesmo quando chegava tarde dos bailinhos, e agora, adulta, ainda que tenha ido me deitar às 3 da manhã. E  muitas foram também as noites roubadas do sono, quando eu me prometia: só mais uma página, para terminar virando a última ao clarear do dia.

Ler é ato físico: o livro é extensão dos meus braços, esticando-os até onde a imaginação encontra a letra. As palavras impressas colam-se em minhas retinas e o ritmo do autor, suas pausas, pontos, vírgulas, são minha respiração.

Assim adormecemos, a história e eu, abraçadas como amantes, e que amante promíscua devo ser, pois não raro tenho dois ou três livros debaixo dos lençóis.

E se houve uma noite em minha vida em que não li algumas páginas antes de dormir, foi porque não me deitei. Ou me deitei, o prazer do corpo saciado sobrepujando o da mente inquieta.

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Este post faz parte do projeto Vou de Coletivo
Tema de outubro: Hábitos de Leitura

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