15 minutos de fama

Quem é essa pessoa sem palavra, que chega por aqui, fala de cômodos fechados, vassouras e faxina, cruza os dedos e jura que dessa vez vai e então some por duas semanas?

Promessas na maioria das vezes nós não as cumprimos  - ainda mais as que fazemos para nós mesmos – e idéias nós as temos para serem mudadas; porém o sumiço se justifica, apenas para variar, pois dessa vez – e apenas desta – não se tratou de indolência, relaxo ou procrastinação, as especialidades desta chef.

Vocês devem ter Twitter. Nunca consegui usar o dito: seguir e ser seguida por que nem conheço me parece o mesmo que estar numa sala apinhada de pessoas, todos a falar ao mesmo tempo e só essa imagem já me apavora. Tenho horror a muita gente reunida, seja por que motivo for. Até festa.

Descobri recentemente uma ferramenta, esta sim, muito mais interessante. Chama-se tumblr . Misture o Blogger ou o WordPress com o tal Twitter e voilá, você usa a coisa como um blog mas segue e é seguido por outros. Você acompanha o que é postado em tempo real e pode reblogar o que gostar.

A diferença é que, ao contrário do Twitter, os usuários do tumblr, sabe-se lá porque, não usam a ferramenta para contar ao mundo o que comeram no almoço ou qual a cor das meias que estão usando. No tumblr posta-se principalmente fotografia. E quando descobri essa que é atualmente minha rede social preferida, encontrei a forma perfeita de mostrar ao mundo um pouco do que ando fazendo com minhas câmeras e filmes.

Esta semana meu bloguinho – Cela aussi passera - andou pelo diretório dos blogs mais indicados e o resultado foi surreal e um pouco assustador: 1154 novos seguidores.

Não poderia deixar de aproveitar meus 15 minutos de fama. Afinal, de alguma forma a fotografia – outro de meus “talentos” que não servem para muita coisa – ao contrário da escrita, me acena com a possibilidade de ganhar um troco, senão agora pelo menos daqui a algum tempo.

Ganhei minha primeira câmera de meu pai, aos dez anos. Aos doze consegui que ele me comprasse uma Yashica Eletro 35, até hoje uma de minhas câmeras preferidas. Aos vinte, comprei minha primeira SLR, ou uma câmera “profissional” como gostam de dizer uns por aí. Fiz Comunicação, o que me deu a oportunidade de estudar a fotografia mais a fundo e afiar um pouco o olhar. Portanto, posso dizer que a primeira metade de minha vida foi passada com uma câmera ao lado.

Não me lembro quando foi que deixei de “fotografar” e passei a “tirar fotos”. Assim, como todo mundo faz. Aniversários, viagens, família, apenas. Vocês sabem, retratos. Nenhuma preocupação com luz, composição, apenas o registro do momento. Mas eu sei de quem é a culpa. É dessa coisa que inventaram, a tal câmera digital.

A tal câmera digital é responsável também por uma reflexão que venho fazendo há cerca de dois anos. Que envolve basicamente a questão do registro X a experiência. Assunto para um outro post, claro.

Afinal, se a semana que passou foi “de fotografar”, esta que já vai pelo meio pode muito bem ser  ”de escrever”.

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Cela aussi passera

Há alguns meses atrás, alguém muito próximo a mim passou por uma grave questão existencial e teve  que tomar uma dura decisão. Questão de vida ou morte mesmo, mais do que apenas “felicidade” num momento mais imediato. O problema, que envolvia o bem estar de várias outras pessoas, era de paz de espírito num sentido mais amplo e até mesmo de sanidade a longo prazo.

Tomada a decisão e assumidas as consequências, meu amigo tatuou no braço – em árabe, para homenagear a descendência de sua família – um antigo ditado sufi: ”Isso Também Passará”.

Quase faço uma tatuagem igual. Talvez não em árabe, mesmo sendo eu neta de libaneses, mas em português mesmo. Só não o fiz porque acho que tatuagem, ainda mais dessas que são verdadeiros ritos de passagem, não é coisa que se copie. Para quem nunca se aventurou a marcar a própria pele com tinta, se tatuar é uma experiência profunda e emocional, raramente apenas um adorno no corpo.

Quando resolvi usar o tumblr para publicar meu trabalho de fotografia, precisei de  um nome para o blog. Não tive dúvida. Traduzi a frase do meu amigo para minha língua preferida: Cela Aussi Passera, e voilá, batizei meu novo espaço virtual. Soou linda em francês e perfeita para um blog sobre fotografia, afinal, o que é o capturar uma imagem – principalmente para mim, que trabalho com filme – senão o registro físico de um momento no tempo, nos lembrando para sempre que se podemos registrá-lo, jamais poderemos detê-lo e uma fotografia apenas uma eterna lembrança de que ele, o tempo, passa inexorável? Apenas não segue inifnitamente em linha reta, como querem crer alguns, mas em ciclos, que começam, terminam e têm a duração exata que a Vida sabe que devem ter.

Cela aussi passera, afinal o que é que não passa nessa vida? Eu bem o sei, tenho aqui uma pequena lista de quantas vezes a vida quis me passar a perna e quem deu a volta nela fui eu. Não gosto da palavra superação, que considero piegas e nos faz parecer mais heróis do que nossa simples condição de meros humanos permite, mas posso dizer que, sim, já passei por cima de um bocado de coisas, algumas bem amassadas, como pão, pelo rabo do diabo. Não sem derramar minha cota de lamentações, claro, o “molho da casa” da boa canceriana que sou, mas passei assim mesmo e fui mais eu.

Hoje recebemos uma notícia, meu marido e eu, e não foi exatamente o que gostaríamos de ouvir. Não se trata de saúde, de crise de relacionamento ou problema de família, o que por si só já nos deixa serenos e confiantes de que não devemos dar a um problema as proporções que ele não tem. Até aqui demos conta, daqui para a frente continuaremos a dar.

E se o presente, em todos os sentidos, passou, que venha – quando os Fluxos acharem por bem –  mais uma vez outra estação, que com certeza trará muitas outras safras de nossa fruta preferida. Aguardemos, então, que também isso passe, pois o que é o futuro senão o tempo em movimento.

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1985

A rua se chama Alagoas, o bairro é a Savassi. O nome do shopping é Quinta Avenida e, na entrada, uma pequena multidão está parada, dividida em pequenos grupos, como acontece toda tarde de sexta-feira. Conversam todos ao mesmo tempo, com risadas sinceras ou ensaiadas, falam muito alto. Cigarros acesos nas mãos, mochilas nas costas, docksides nos pés. Ninguém ali tem mais que dezoito anos.

Observo a menina que cruza correndo a rua, leve como seus 16 anos ou seus 48 quilos, e se desvia de um Fiat 147 que dobra, de repente, a esquina. Chega segura ao outro lado da calçada, ajeita os cabelos compridos que formam um V em suas costas e sobe um pouco mais a cintura da calça, presa por um largo cinto verde-limão.

Ela olha em volta, estuda de longe o aglomerado de iguais que ali está, com certeza a procura de alguém. Tira da mochila bicolor os óculos espelhados, acende um cigarro e sobe a rua em direção ao shopping.

Tenho que ser rápida para acompanhar seus passos e sua pressa mal contida, preciso falar com ela. Nos embrenhamos, as duas, no mar de meninos e meninas. Ela se encosta num pequeno muro baixo, descansa a seu lado a mochila, olha o relógio e ensaia um ar de tédio. Sim, espera alguém.

A poucos passos dali está um menino a encará-la, insistente, quase suplicante. Cabelo mais comprido atrás, bem repicado na frente, óculos tão espelhados quanto os dela, ele imediatamente acende um cigarro assim que a vê. Lábios grossos e dentes proeminentes, ressaltados pelo aparelho, os amigos o chamam de Mônica. Mas para a menina ele é Chicão. Sim, Chicão, que já a livrou de encrencas, de garotos mal intencionados, que bateu e apanhou por causa dela e até mesmo lhe arrancou uns beijos quando foi deixá-la em casa, no carro do pai.

Ela finge que não o vê. Ainda não decidiu se gosta ou não dele. Talvez porque saiba que ele é louco por ela, um estalar de dedos e a incerteza vira namoro. Quem sabe?, ela devaneia, e conclui que ainda não. Não antes do show do Ultraje no Santa Tereza Cine Show. Ele pode esperar outra semana.

Mas eu não posso esperar. Há muito o que dizer e minha vontade é pegá-la pelo braço ali mesmo, e despejar palavras que podem transformá-la no que ela tanto quer ser e ainda não sabe. Só não consigo decidir por onde começar. Afinal, se eu a conheço tanto, ela nem sabe quem sou.

Como abordá-la? Reparo em sua inquietude enquanto ela olha de novo o relógio e pensa que poderia ter trocado a pulseira laranja pela amarela, e torna a desviar o olhar para evitar que Chicão se aproxime.

O tempo corre e preciso chegar até ela. Imagino nosso diálogo enquanto ela abre a carteira da Company e pega uma ficha de telefone. E se ele chegar enquanto vou até o orelhão?, cogita ela. A menina hesita, eu ganho tempo.

Ensaio minhas palavras, conversando comigo mesma como se falasse com ela.

Veja bem – eu começo – sei que você não me conhece mas me escute. O tempo passa. O tempo passa muito rápido, acredite em mim. Não, não é papo de velha. Escuta. Vai chegar um dia em que você vai ouvir o Legião e “somos tão jovens” não vai mais fazer sentido nenhum pra você. Você vai ter vontade de chorar quando ouvir essa música. É, eu sei, parece impossível e incrivelmente distante, mas acontece, te juro. Então, o que eu preciso que você entenda é que futuro é um só. Comece a se levar mais a sério, pense nas suas escolhas, os seus talentos são muitos. Mas você precisa escolher um deles e se focar! Pode até ser Direito, como papai sempre sugere, ou outra coisa qualquer, afinal profissão não precisa ser advogado, médico, engenheiro, existe um mundo de outras coisas que você pode escolher. Mas o que quer que for que você escolha, coloque naquilo o seu coração. Foco, entende? Não, não ria! Essa coisa de escrever ou seu gosto por fotografia, são talentos reais que você tem. Você pode ser uma grande escritora ou uma fotógrafa respeitada! Brincadeira? Não senhora! Persistência, vontade, só isso! E você pode escolher fazer História, sim, pode seguir uma carreira acadêmica, ser pesquisadora. O que é carreira acadêmica? Pergunte pra sua professora que ela te explica. Na verdade, o que eu estou tentando te dizer é que você pode escolher qualquer coisa, mas escolha uma só e vá até o fim, acreditando em você! Papo de velha, não senhora, papo de quem já viveu mais que você, só isso. E esse cigarro, apague enquanto ainda é possível apagar. É, isso mesmo, um dia a gente descobre que não consegue mais apagar, só um toque, tá? E veja se toma gosto por algum esporte. Parou com o ballet porque? É, esporte, ginástica, isso mesmo! Preguiça? Preguiça tenho eu de ficar aqui tentando explicar pra você que a vida não é nada disso que você pensa!

Discurso ensaiado, tomo coragem, vou pegá-la de jeito. Mas é tarde demais.

Um SP2 branco para junto ao meio-fio, ela abre a porta, atira a mochila no banco de trás e beija na boca o menino ao volante, a atrevida.

Ela teria me ouvido? Tenho certeza que não. Teria, sim, me ignorado, tirando um espelho da inseparável mochila, passando nos lábios mais uma camada de Grape. Ligaria o walkman com a fita do Duran Duran, acenderia mais um Salem mentolado e continuaria acreditando que tinha todo o tempo do mundo a perder.


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Promessas e faxina

É  domingo – dia da semana longe da minha predileção – e a casa está quieta. Todos estão fora e apenas Juju, enrolada aos pés da minha cama, focinho escondido entre as patas, abrigado da friagem do inverno belorizontino, me faz companhia.

Calma e quietude, delas desfruto, artigos tão raros hoje em dia, ainda que apenas por hoje, nesta tarde preguiçosa, fresca e azul.

Ensaio, como disse no post anterior, uma volta. Pretendo dar à minha porção “escritora” uma nova chance, afinal um voto de confiança merecemos todos, até os indolentes e indisciplinados.

Mas antes, porém… há promessas a fazer ou o barco faz água de novo. Não, não prometo nada a vocês que têm a bondade de passar por aqui pra me ler. Dirijo minhas promessas a essa moça que tanto tem a dizer mas se cala diante da avassaladora mania de perfeição que possui.

Andei trocando emails com um colega escritor,  três livros publicados, um mundo a mais de experiência que eu, e que , ainda assim, já caiu em armadilhas parecidas com as que preparo para mim mesma.

Ele me diz: “…também padeço certas horas… Tenho pra mim que quem tem obrigação de levar um blog como uma padaria – todo dia com pão novo – é jornalista ou celebridades. Nós mortais comuns não, por ora…”

Portanto é esta minha primeira promessa: diga o que tem que dizer sem se esquecer que há dias em que é melhor se calar.

Recebi dele a mais preciosa das regras: “Quando se cria não se julga. Quando se julga não se cria mais.”

Parece óbvio, eu mesma sempre soube disso. Mas muito mais fácil é dizer do que fazer. Agora mesmo, enquanto digito esse post, há uma irresistível vontade de rolar a página e reler. Resisto. Só o farei daqui a pouco, antes de publicar. Prometo.

E prometo ainda que escreverei apenas para cumprir o que o ato de escrever me cobra: que eu partilhe minha visão do mundo que, imaginem, tem até ajudado uns e outros que por aqui passam vez em quando. A maestria, a perfeição, essas pertencem aos Amados, aos Guimarães, aos Saramagos. Prefiro escrever de maneira medíocre a deixar de me expressar como gosto e como posso.

Por fim, meu amigo escritor me diz: “A pressão realmente é uma vizinha que não pode morar perto da gente-escritor nunca.”

A pressão e a culpa por não escrever caminham juntas. Foram as principais razões que me mantiveram afastada da página em branco. Ora, ninguém me pressiona a não ser eu mesma. Sim, euzinha, aquela que adora se culpar por não ser perfeita.

Portanto, prometo e afirmo, do fundo da alma: prefiro ser prolífica a ser perfeita.

No início desse ano nos mudamos, meu marido e eu, para um apartamento em São Paulo. Não tenho idéia de quanto tempo ficou fechado antes de nos receber como inquilinos. Decidimos nós mesmos arregaçar as mangas e fazer a faxina.

Quando abri o armário do quarto, pensei que as prateleiras de madeira estavam pintadas de bege. Não. Era apenas a mais grossa camada de pó que eu já havia visto na vida. Foi preciso aspirador, espanador, panos molhados e detergente até que eu pudesse colocar nelas minhas roupas limpas e bem passadas.

Quem já se aventurou a cometer uma faxina desse porte sabe que pó acumulado de meses não sai assim com uma esfregadela. É preciso a mais arraigada disposição, paciência e capricho.

E assim vou voltando aos poucos. As janelas já estão abertas, os cômodos arejados.

Promessas e vassoura em punho, espero o sol da inspiração bater em minha sala.

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Saudades

Passo por aqui vez em quando, coração apertado. Meu lar virtual parece hoje um apartamento fechado, com janelas empoeiradas e lençóis a cobrir os móveis. Como proprietária, um pouco desleixada, é verdade, venho, abro um pouco as janelas, recolho a correspondência atirada por debaixo da porta e volto a trancá-lo. Que saibam, então, que completamente abandonada esta morada não está.

Sinto saudades de quando habitava aqui aquela a quem as palavras vinham fácil, dóceis, como um cão que apanha confiante o alimento da mão do dono. Era assim que elas vinham a mim, as palavras. Mas confiança, uma vez perdida, precisa ser de novo conquistada.

Sentimos falta uma da outra, eu e a página em branco. Falta algo e a Vida pede que o vazio seja novamente preenchido. Há muito ainda o que dizer, mesmo que eu teime em afirmar o contrário. Nem sempre a gente pode com a Vida e com aquilo a que ela nos destinou.

Ensaio uma volta, como uma bailarina insegura que calça sapatilhas de ponta depois de tanto tempo. Hesitante, procuro o equilíbrio e a leveza que um dia possuí, os passos ainda incertos. Mas se o corpo não esquece os movimentos também a mente não esquece as idéias, apenas a forma exata de expressá-las.

É muito bom estar aqui novamente.

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Como se escreve um livro?

Photobucket

Tenho pensado em São Francisco do Sul estes dias. Estive por lá coisa de um ano atrás e, vez em quando, São Francisco deixa meu coração – onde mora – para me vir à mente, como um consolo, um alívio em saber que se um dia não houver mais nada, haverá São Francisco do Sul. Não sei por que.

Ou ainda…

Faz tempo perdi a sensação de pertencer. Como quando se coloca na mesa um prato perfeito e alguém diz, sim, delicioso, mas falta… Algo salta aos olhos quando tento me encaixar onde deveria estar, onde já estive, e me separa do entorno. Estou solta e sozinha num espaço que foi, pouco tempo atrás, uma oficina onde as palavras eram as ferramentas.

Como se escreve um livro? Dizem que não há regras, ou ainda, há tantas maneiras de escrever quanto há escritores. Não existe uma receita. E quisera eu houvesse uma.

Como se escreve um livro? Eu acho que sei. Primeiro, a gente começa. Então recheia. E coloca um ponto final.

Escrever – um livro, um conto, uma mensagem de celular ou até uma lista de compras, que seja – me colocaria de volta onde preciso estar. Mas falta algo, como a pimenta naquele prato ou um pouco mais de sal naquele outro.

Sonhei que estava grávida noite passada. Uma sensação de horror tomou conta de mim, como sempre acontece, sendo esse um sonho recorrente. E o alívio ao acordar. Aí está: é preciso estar pronta para dar à luz.

Preciso me reencontrar com Clara. Relembrar como ela é, como pensa, o que ela sente, e isso nem sempre é fácil, porque em Clara há dor, questionamentos e infinitas perguntas sem respostas e todas as possibilidades do mundo pela frente. Mas uma vez que a concebi, ela é de minha responsabilidade. Se ela veio até mim de alguma forma, é porque precisa que sua história seja contada.

Para contar a história de Clara preciso de São Francisco. De suas ruas carregadas de história, das águas inquietas da Baia de Babitonga, ora pacificamente azuladas, ora desfiguradas pelo cinza que se derrama lá de cima, e do mar, do mar, que se abre infinito para encontrar o céu, como minha alma se abre todos os dias sem que ninguém perceba.

Não posso estar em São Francisco. Desejo então que, de alguma forma, ela esteja em mim, nas imagens que capturei com meus olhos, como as redes dos pescadores capturavam o alimento do dia, quando lá estive e pude ver. Que eu possa ver o mar onde ele não está e sentir seu hálito salgado me soprar palavras, quando eu em vão procurar por elas. Que o mar possa estar dentro, como está dentro um mundo inteiro que, quisera eu, pudesse mostrar.

Ps – Clara é a personagem de um romance começado e abandonado, porque eu estava ocupada demais tentando ser quem não sou.

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Feliz Natal, Feliz Retorno

O último post que escrevi foi há 2 meses. Não foi apenas o último post. Confesso: foi o último texto. Fora anotações e pesquisa para o romance, e alguns esboços de capítulos, eu nada escrevi. Na verdade, nem mesmo voltei aqui. Foi como cobrir os móveis com lençois, fechar a casa e partir.

Há uma frase que está presente na maioria das coisas que escrevo: a Vida guarda surpresas. Tenho uma crença profunda nos fluxos, na sabedoria dos ciclos, que se abrem e se esgotam em seu próprio tempo, sem necessariamente obedecer aos meses do calendário.

Quando me preparava para a dedicação exclusiva  a Porto do Acaso, meu primeiro romance, a Vida decidiu que não era a hora e nos presenteou, meu marido e eu, com grandes e longamente desejadas mudanças.

Fecho 2009 iniciando uma nova história: de mais prosperidade, de mais qualidade de vida, de mais aventuras há muito desejadas e, acredito, profundamente merecidas. Não tive oportunidade de parar e escrever – que é atividade solitária, introspectiva – mas de apenas viver, mergulhando até molhar os cabelos em cada nova e surpreendente experiência. O momento de parar e relatá-las há de chegar em breve.

Dito isso, me deixo contagiar pelos votos dos amigos leitores e desejo que, assim como a Vida me surpreendeu no fim de 2009 com presentes embrulhados nas cores dos meus sonhos, Ela venha também trazer a vocês tudo aquilo que está em seus corações.

Alegria, Amor, Luz. Para todos, sempre.

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