
Writer´s block. Desconheço uma expressão na minha própria língua que traduza com apuro o que quer dizer isso. Mas conheço com intimidade a sensação.
Um dia, algo dentro de você se recusa a escrever. Idéias são espantadas como moscas ou descartadas como panos de prato sujos. E não há exatamente uma explicação.
A louça na pia, de repente, é a coisa mais importante do mundo. Entrar no site do banco e verificar o saldo não pode esperar até daqui a pouco. Terminar o capítulo de um livro, assistir à novela na TV, pintar os cabelos: tarefas banais, tudo o que poderia ser feito sem culpa – depois que você terminasse de escrever aquele texto que está gritando para ser escrito – atravessa na frente. Qualquer coisa é a melhor desculpa para não escrever.
Tenho certeza que se você, leitor, gosta de escrever, já passou por fases assim. Podem durar dias ou meses. Mas são sempre dolorosas e irritantes. Porque escrever é o que mais amamos fazer.
Natalie Goldberg é o nome de minha santa padroeira. Seu Writing Down the Bones, lançado no Brasil como Escrevendo com a Alma, sugere uma maneira de saltar sobre o muro do bloqueio. Ela diz: escreva.
Atletas treinam. Corredores se aquecem, se alongam e correm. Todos os dias. Não ficam sentados esperando pela vontade de correr. Músicos, mesmo os consagrados, passam algumas horas por dia junto a seus instrumentos. O escritor nem sempre pratica. Geralmente está muito preocupado em Escrever. Com E maiúsculo. E é a prática que leva à confiança naquilo que você pretende expressar, na sua voz interior.
Decido experimentar o exercício que Natalie sugere. Preciso escrever, há histórias demais dentro de mim, me sinto pesada carregando-as inutilmente por aí. A louça na pia ou a raiz branca dos cabelos não podem ser mais importantes que isso.
Caneta e papel na mão, faço como ela ensina:
Escrevo sem reler, porque é isso que cala aquela voz cujo sussurro irritante compete com o da caneta riscando o papel: quem você pensa que irá ler tanta besteira? Porque você pensa que pode escrever? Quem você pensa que é?
Escrevo sem rasurar, porque isso não é escrever. É editar.
E, por fim, acato sua brilhante sugestão. Se não sabe por onde começar, comece onde está.
Tem feito um frio deslocado e importuno, nos últimos dias. Depois de amanhã é primavera, mas a bruma malcriada subiu novamente da represa perto daqui e trouxe de volta o inverno. Amanheceu um céu mais limpo e um sol fraco espiou uma vez ou duas por entre as nuvens ralas, aquecendo um pouco meu peito saudoso de quentura.
Da janela do quarto, posso ver as sacadas dos apartamentos vizinhos. Uma senhora, ainda de pijamas, abre a casa e aproveita a manhã de quase sol para arejar o ar de dias estagnados. Uma mãe tenta alimentar duas crianças, mais interessadas em seu pequeno yorkshire do que na comida que lhes é empurrada junto com a preocupação materna. Dali, as duas também podem me ver, refestelada na cama, caderno na mão, escrevendo sem parar para respirar. Fosse um dia de semana, me sentiria constrangida. É quase meio dia, hora em que cidadãos pertencentes à cadeia produtiva que move o país estão saindo para engolir seus rápidos almoços, e não pensando num café da manhã tão tardio.
Sim, é bom soltar a mão e observar a caneta se espalhando livre e contente sobre papel. Não há compromisso enquanto permito o vagar preguiçoso da mente pela manhã morna de sábado. Posso editar. É possível cortar ou acrescentar. Há até mesmo a escolha de não publicar.
Natalie Goldberg garante que quando escrevemos dessa forma, nossas primeiras e melhores impressões ganham voz e registro. Quando nos damos conta, estamos a produzir contos, poemas, crônicas.
Quero crer que ela esteja certa e, se for preciso, me prontifico a preencher incontáveis cadernos em busca da minha voz.
O divórcio entre a escritora e a página em branco já durou tempo demais. E é lá meu habitat natural, meu verdadeiro lar, a página permeável que absorve e ecoa o melhor em mim. Se não estou ali, não estou em casa. Não estou confortável em parte alguma. Não consigo caber dentro de mim.