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Cela aussi passera

Há alguns meses atrás, alguém muito próximo a mim passou por uma grave questão existencial e teve  que tomar uma dura decisão. Questão de vida ou morte mesmo, mais do que apenas “felicidade” num momento mais imediato. O problema, que envolvia o bem estar de várias outras pessoas, era de paz de espírito num sentido mais amplo e até mesmo de sanidade a longo prazo.

Tomada a decisão e assumidas as consequências, meu amigo tatuou no braço – em árabe, para homenagear a descendência de sua família – um antigo ditado sufi: ”Isso Também Passará”.

Quase faço uma tatuagem igual. Talvez não em árabe, mesmo sendo eu neta de libaneses, mas em português mesmo. Só não o fiz porque acho que tatuagem, ainda mais dessas que são verdadeiros ritos de passagem, não é coisa que se copie. Para quem nunca se aventurou a marcar a própria pele com tinta, se tatuar é uma experiência profunda e emocional, raramente apenas um adorno no corpo.

Quando resolvi usar o tumblr para publicar meu trabalho de fotografia, precisei de  um nome para o blog. Não tive dúvida. Traduzi a frase do meu amigo para minha língua preferida: Cela Aussi Passera, e voilá, batizei meu novo espaço virtual. Soou linda em francês e perfeita para um blog sobre fotografia, afinal, o que é o capturar uma imagem – principalmente para mim, que trabalho com filme – senão o registro físico de um momento no tempo, nos lembrando para sempre que se podemos registrá-lo, jamais poderemos detê-lo e uma fotografia apenas uma eterna lembrança de que ele, o tempo, passa inexorável? Apenas não segue inifnitamente em linha reta, como querem crer alguns, mas em ciclos, que começam, terminam e têm a duração exata que a Vida sabe que devem ter.

Cela aussi passera, afinal o que é que não passa nessa vida? Eu bem o sei, tenho aqui uma pequena lista de quantas vezes a vida quis me passar a perna e quem deu a volta nela fui eu. Não gosto da palavra superação, que considero piegas e nos faz parecer mais heróis do que nossa simples condição de meros humanos permite, mas posso dizer que, sim, já passei por cima de um bocado de coisas, algumas bem amassadas, como pão, pelo rabo do diabo. Não sem derramar minha cota de lamentações, claro, o “molho da casa” da boa canceriana que sou, mas passei assim mesmo e fui mais eu.

Hoje recebemos uma notícia, meu marido e eu, e não foi exatamente o que gostaríamos de ouvir. Não se trata de saúde, de crise de relacionamento ou problema de família, o que por si só já nos deixa serenos e confiantes de que não devemos dar a um problema as proporções que ele não tem. Até aqui demos conta, daqui para a frente continuaremos a dar.

E se o presente, em todos os sentidos, passou, que venha – quando os Fluxos acharem por bem –  mais uma vez outra estação, que com certeza trará muitas outras safras de nossa fruta preferida. Aguardemos, então, que também isso passe, pois o que é o futuro senão o tempo em movimento.

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Querida Ana

Minha querida Ana,

Sei que você está vivendo tempos de grandes mudanças, tempos em que as lições necessárias parecem simplesmente mais caras do você pode pagar. Por isso lhe escrevo, minha querida, pois de onde estou talvez possa lhe dar uma perspectiva maior sobre o momento que você está vivendo.

Como você já percebeu, seu medo de que sua vida seria curta demais é infundado. Veja bem de onde lhe escrevo: há ainda outra vida a ser vivida, tão longa quanto a que você viveu até agora. Quisera eu ter de novo sua juventude, assim como desejo que você pudesse contar hoje com minha experiência. Você ainda não é velha, criança, mas um dia será. E quando esse dia chegar, você contemplará sua própria história com orgulho, pois confio que você saberá viver uma vida plena e bela.

Sim, estou orgulhosa de você, minha Ana. No mundo há aqueles que vêm, aqueles que jamais verão e aqueles que permitem que outros lhes abram os olhos. Sei que você resistiu por muito tempo a encarar seus medos, mas agora que os afronta com brio sabe que eles são pequenos diante da infinidade da sua alma.

Sim, você, criança, que se acha tão pequena, tem uma alma onde tudo cabe. Mas preciso dizer-lhe também que poucos compreenderão essa grandeza e irão preferir que você a guarde para si. O mundo não concebe tanta delicadeza, mas nós duas sabemos que ai está sua força, portanto, que esse seja um segredo entre nós duas.

À sua frente se estendem agora duas estradas. Escolha a menos percorrida e isso fará toda a diferença. Sei que agora você se pergunta onde é seu lar, onde é lugar a que você pertence. Li uma vez – já não me recordo onde, pois nessa idade a memória me falha – que nosso lar é onde somos compreendidos. Seu lar, Ana, são as páginas em branco, são suas palavras que traduzem o que vai na atormentada e hesitante alma humana. Nunca deixe de escrever e você estará sempre em casa.

Fico feliz que você tenha percebido que seu caminho é esse, o de tocar o outro com palavras. Não tenha dúvida que essa será sua melhor contribuição para o mundo e você ficaria muito surpresa se eu lhe contasse quão longe esse caminho irá te levar. Há muitas histórias a serem contadas, portanto não se arrependa dos erros, não se desvie da dor, não evite as lições que parecem tão exaustivas. Essa é a matéria prima do escritor: uma infinidade de vivências. Prepare-se, pois. Há muito trabalho pela frente.

Jamais tenha medo ou lamente suas perdas. Apenas se desapegue com amor daquilo que já foi e guarde no coração a beleza dos momentos vividos. Aprenda o que é a real entrega: a confiança na Vida e na perfeição dos fluxos.

Seja sempre você mesma. E confie no Tempo. Ele me trouxe até aqui e a trará também. O tempo faz bem para tudo. Só não faz bem para a pele, portanto, continue cuidando bem dela!

E um dia nós duas nos encontraremos. Você me contará como o temor de não ser capaz foi superado pela vontade de ser livre. E eu poderei te dizer, então, que jamais duvidei que você já não soubesse disso.

Com amor,

Ana Paula Sampaio
03/03/2049

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Vontade de andar

lagoa

Quase fim de janeiro e nos blogs abandonados por donos em férias ainda estão as tais listas de resoluções para o ano novo. Metas a serem cumpridas, promessas inquebrantáveis, mudanças necessárias esquecidas por tempo demais e tudo aquilo que juramos de pés juntos que, sim, dessa vez vai.

Acredito na sincera intenção dos que fazem essas listas, mas me pergunto também o que foi feito delas agora que 2009 já não é mais o ano que vem. O mais provável é que parar de fumar tenha ficado para depois das férias, caminhar todo dia só assim que passarem as chuvas, estudar francês fica para março e emagrecer, então… adiado confortavelmente para o segundo semestre. E pior, os itens-prazer da lista – mais tempo com os amigos, aquela viagem, uma nova tatuagem – são sempre os primeiros relegados àquele depois que não sabemos quando.

Não acredito em resoluções de ano novo, essas listas bem intencionadas mas tão logo esquecidas assim que o futuro vira presente. Afinal para mudar é preciso vontade, um querer que não obedece calendário.

Planejar de alguma forma é importante, nem que seja pela ilusão de que controlamos nosso futuro. O detalhe é que nunca acontece como imaginamos. A Vida está sempre a nos pôr em outro lugar. Para o bem e para o mal, a Vida surpreende.

Todas as noites planejo meu dia seguinte. Jamais funcionou. Acabo por fazer, não o necessário, mas o que me inspira o momento. Algo atravessa o caminho, uma oportunidade surge, uma prioridade muda de lugar. No final tudo caminha bem, apenas fora do meu controle.

Foi em um dos primeiros dias de janeiro que saí para um passeio a pé na beira da lagoa perto de casa. Sim, retomar algum tipo de atividade física esteve sempre na pauta do dia. Mas fui apenas andar um pouco, talvez numa pequena homenagem a um dia especialmente bonito.

A calçada que beira o lago está caprichosamente conservada, ladeada por grama macia de um verde daqueles de planta quando agradece chuva. As palmeiras imperiais sussurram quase como o mar quando a brisa bate. As muitas árvores na margem provêem o sombreado que faz o calor de janeiro virar primavera. E a lagoa… a lagoa reflete um céu de verão, que enche a paisagem de azul e a alma de ar e luz. Venta fresco nessa manhã da minha estação preferida do ano.

No dia seguinte eu estava lá. E no outro. E mais uma vez. Não planejei “começar caminhadas”. Naturalmente, algo mudou de lugar e houve vontade. Porque foi bom e não por que era janeiro ou segunda feira. Vontade que transformou passeios em treinos. Entusiasmo. A Vida surpreende.

Acredito que a Vida gosta quando a gente anda: não com a cabeça baixa de impaciência mas com olhos que pousam diferentes nas coisas de sempre, procurando mudança. A Vida não gosta que andemos de mãos fechadas. Estas só conseguem segurar aquilo que já foi, impossibilitadas de apanhar e acalentar  eventuais surpresas.

Novidades acontecem sempre que as mãos estão disponíveis, sempre que os olhos estão abertos.

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