A rua se chama Alagoas, o bairro é a Savassi. O nome do shopping é Quinta Avenida e, na entrada, uma pequena multidão está parada, dividida em pequenos grupos, como acontece toda tarde de sexta-feira. Conversam todos ao mesmo tempo, com risadas sinceras ou ensaiadas, falam muito alto. Cigarros acesos nas mãos, mochilas nas costas, docksides nos pés. Ninguém ali tem mais que dezoito anos.
Observo a menina que cruza correndo a rua, leve como seus 16 anos ou seus 48 quilos, e se desvia de um Fiat 147 que dobra, de repente, a esquina. Chega segura ao outro lado da calçada, ajeita os cabelos compridos que formam um V em suas costas e sobe um pouco mais a cintura da calça, presa por um largo cinto verde-limão.
Ela olha em volta, estuda de longe o aglomerado de iguais que ali está, com certeza a procura de alguém. Tira da mochila bicolor os óculos espelhados, acende um cigarro e sobe a rua em direção ao shopping.
Tenho que ser rápida para acompanhar seus passos e sua pressa mal contida, preciso falar com ela. Nos embrenhamos, as duas, no mar de meninos e meninas. Ela se encosta num pequeno muro baixo, descansa a seu lado a mochila, olha o relógio e ensaia um ar de tédio. Sim, espera alguém.
A poucos passos dali está um menino a encará-la, insistente, quase suplicante. Cabelo mais comprido atrás, bem repicado na frente, óculos tão espelhados quanto os dela, ele imediatamente acende um cigarro assim que a vê. Lábios grossos e dentes proeminentes, ressaltados pelo aparelho, os amigos o chamam de Mônica. Mas para a menina ele é Chicão. Sim, Chicão, que já a livrou de encrencas, de garotos mal intencionados, que bateu e apanhou por causa dela e até mesmo lhe arrancou uns beijos quando foi deixá-la em casa, no carro do pai.
Ela finge que não o vê. Ainda não decidiu se gosta ou não dele. Talvez porque saiba que ele é louco por ela, um estalar de dedos e a incerteza vira namoro. Quem sabe?, ela devaneia, e conclui que ainda não. Não antes do show do Ultraje no Santa Tereza Cine Show. Ele pode esperar outra semana.
Mas eu não posso esperar. Há muito o que dizer e minha vontade é pegá-la pelo braço ali mesmo, e despejar palavras que podem transformá-la no que ela tanto quer ser e ainda não sabe. Só não consigo decidir por onde começar. Afinal, se eu a conheço tanto, ela nem sabe quem sou.
Como abordá-la? Reparo em sua inquietude enquanto ela olha de novo o relógio e pensa que poderia ter trocado a pulseira laranja pela amarela, e torna a desviar o olhar para evitar que Chicão se aproxime.
O tempo corre e preciso chegar até ela. Imagino nosso diálogo enquanto ela abre a carteira da Company e pega uma ficha de telefone. E se ele chegar enquanto vou até o orelhão?, cogita ela. A menina hesita, eu ganho tempo.
Ensaio minhas palavras, conversando comigo mesma como se falasse com ela.
Veja bem – eu começo – sei que você não me conhece mas me escute. O tempo passa. O tempo passa muito rápido, acredite em mim. Não, não é papo de velha. Escuta. Vai chegar um dia em que você vai ouvir o Legião e “somos tão jovens” não vai mais fazer sentido nenhum pra você. Você vai ter vontade de chorar quando ouvir essa música. É, eu sei, parece impossível e incrivelmente distante, mas acontece, te juro. Então, o que eu preciso que você entenda é que futuro é um só. Comece a se levar mais a sério, pense nas suas escolhas, os seus talentos são muitos. Mas você precisa escolher um deles e se focar! Pode até ser Direito, como papai sempre sugere, ou outra coisa qualquer, afinal profissão não precisa ser advogado, médico, engenheiro, existe um mundo de outras coisas que você pode escolher. Mas o que quer que for que você escolha, coloque naquilo o seu coração. Foco, entende? Não, não ria! Essa coisa de escrever ou seu gosto por fotografia, são talentos reais que você tem. Você pode ser uma grande escritora ou uma fotógrafa respeitada! Brincadeira? Não senhora! Persistência, vontade, só isso! E você pode escolher fazer História, sim, pode seguir uma carreira acadêmica, ser pesquisadora. O que é carreira acadêmica? Pergunte pra sua professora que ela te explica. Na verdade, o que eu estou tentando te dizer é que você pode escolher qualquer coisa, mas escolha uma só e vá até o fim, acreditando em você! Papo de velha, não senhora, papo de quem já viveu mais que você, só isso. E esse cigarro, apague enquanto ainda é possível apagar. É, isso mesmo, um dia a gente descobre que não consegue mais apagar, só um toque, tá? E veja se toma gosto por algum esporte. Parou com o ballet porque? É, esporte, ginástica, isso mesmo! Preguiça? Preguiça tenho eu de ficar aqui tentando explicar pra você que a vida não é nada disso que você pensa!
Discurso ensaiado, tomo coragem, vou pegá-la de jeito. Mas é tarde demais.
Um SP2 branco para junto ao meio-fio, ela abre a porta, atira a mochila no banco de trás e beija na boca o menino ao volante, a atrevida.
Ela teria me ouvido? Tenho certeza que não. Teria, sim, me ignorado, tirando um espelho da inseparável mochila, passando nos lábios mais uma camada de Grape. Ligaria o walkman com a fita do Duran Duran, acenderia mais um Salem mentolado e continuaria acreditando que tinha todo o tempo do mundo a perder.




28 Comments
ahhhhh Ana!!!!!
Ainda dá tempo, sabia?
adorooooooo, simplesmente adooorooooo te ler!
=)
O pior é que é assim mesmo e não há como transmitir para ninguém. Tem que viver e descobrir e é isso que nos constrói.
Bonito texto e gostoso de ler.
beijos
PQMP!!!!!!!! Me imaginei fazendo o mesmo, sabia??? Affe!!!! Nunca, NUNCA mais deixe este blog tanto tempo sem posts!
AFF…. chorei!
Simplesmnete fascinante!
Não é que eu conheço bem essa história!
Belo texto Ana, digno da grande escritora, fotografa e publicitária que és!
Keep walking!
amiga!Que saudades dos teus textos! Amei este!Assisti ontem A dona da História, já viu? Adoro esse filme, é a terceira vez q eu vejo, e estava pensando exatamente nas opções que temos na vida e no “e se eu tivesse feito diferente”…rsrs
beijão gigante!
=D
Ô Dê… não dá mais tempo não… Se a gente quer saber o futuro é só olhar pro passado. Continuam me faltando as mesmas coisas que me faltavam na época: foco, vontade, persistência. E o mundo hoje é muito mais complicado. Todo mundo escreve, todo mundo fotografa e tem um mundo de gente muito mais nova fazendo isso tudo e muito melhor do que eu. Eu me contendo em publicar meus textinhos aqui e fico muito feliz quando os amigos passam pra ler… Só isso já tá bom! =)
Angela, infelizmente é assim mesmo, a gente só aprende vivendo. Beijos!
Mô, eu acho que esse jeito novo de escrever, sem exigir demais de mim, está dando certo. Pelo menos estou escrevendo, o que já é um começo… Acho que você chorou porque me conhece e sabe o final dessa história… Beijos, amo você!
Ismael, eu acho que o melhor de escrever é poder explicar o que a gente sente. Esse texto explica bem o que sinto em relação a tudo que eu podia ter sido e não fui. O resultado final você já sabe, por isso acho que um texto bem triste…
Ju, saudades! Adoro A Dona da História, preciso ver de novo! Ah, eu queria ter feito tanta coisa diferente nessa vida… beijos!!!!
Ana Paula, quando comecei a ler “1985”, pela beleza do texto “transferi” o cenário pr’aqui, em Maringá, “postei-me” em frente ao maior shopping da cidade, e vi tudo… até o 147. Juro! Aliás, acho um perigo duplo ser atropelado por um 147; além da certeza de ossos quebrados, a gente ainda contrai o tétano que viaja nas suas ferrugens (rsrsrs).
Um texto envolvente, Ana. Até me senti meio “Chicão”, meio dentuço. Você conseguiu me transportar pra um pouco mais longe… 1969. À época eu tinha 17 anos, cabelos longos, uma banda que eu amava demais, e até uma menina assim, meio maluquinha, com quem assisti como primeiro filme juntos “Romeu & Julieta”. O tempo levou (¿?) tudo isso…
Muito obrigado pela “trip in return to the past” no texto.
Abs. Sucesso!! E uma ótima semana pra você e os seus.
“tem um mundo de gente muito mais nova fazendo isso tudo e muito melhor do que eu” Discordo! Vc tem algo que os mais novos não tem: VIVÊNCIA! Lembra da minha história com meu patrão judeu??? Pois bem…
Ana, it is never to late for anything in life.
We all have our moment in time.
Sometimes it is when you’re 15, and sometimes when you’re 51!
The most important thought you need to hold in your mind, is the only one I find true in life:”OMNIA VINCIT AMOR”
Knowing this by heart keeps us walking.
Remember, it is all inside of you, you just need to let it out in a burst of ideas and willingness.You will prevail!Be sure of it!Trust yourself!
Cheers
Não conheço essa moça da história, mas poderia apostar que ela é hoje muito mais atrevida e apaixonante… mais que isso, duvido que ela teria deixado de fazer e viver tudo da forma como fez e viveu, ainda que tivésse tido tempo para parar e ouvir o que você tinha a dizer a ela. Mas isso não é só o que eu penso. Também acredito que mais do que aquilo que produzimos e criamos é o que sentimos e fazemos sentido. Vou favoritar essa página, e voltar nela daqui alguns anos e ter o prazer de ler o que você dirá para a moça do Agora… penso que será algo do tipo: “Você tem um puta talento, mas continua perdendo seu tempo esperando e desafiando alguém que consiga te convencer disso – não vai acontecer assim.”
Tem umas palavras de Goethe que caberiam também: “Para ser o que sou hoje fui vários homens. E se volto a encontrar-me com os homens que fui, não me envergonho deles. Foram apenas etapas do que sou. Tudo o que sei custou-me as dores da experiência. Tenho respeito pelos que erram, pelos que procuram, pelos que tateiam. E o mais importante de tudo: Estou persuadido de que minha luz se extinguiria se eu fosse o único a possuí-la.”
Obrigada por compartilhar essas coisas, gostei muito.
Abs,
Você tem tweeter ?
Zé, imagino você se “transferindo” para o shopping de Maringá! A idéia era essa mesma: toda cidade teve seu “Quinta Avenida”, seu “Santa Tereza Cine Show”, etc…
A cena que eu usei aconteceu de verdade. Até o Fiat 147, que na época era novo em folha, zero ferrugem, e quase me atropelou, pelo menos no caso não havia risco de tétano. rsrsrs O Chicão, o garoto do SP2, que se chamava Anderson, tudo verdade. Aliás, o Chicão é um ótimo candidato a personagem, quem sabe não escrevo umas histórias contando todas as maldades que eu fazia com ele? rsrsrs Beijo!
Mo, ter memória de peixinho dourado é duro. Não sei porque, esqueço todas as vezes que a vida tentou me passar a perna e quem deu a volta nela fui eu. Vou anotar no moleskine ou pregar um post-it no espelho do banheiro. Beijos e até amanhã! =D
icpn, dearest, I know, I know… Cora Coralina only got published and recognized after 70. Even Saramago didn’t get published until he was 40, same goes to Adélia Prado. Which is fine for wtiters as I believe we don’t have much to say before that age. Now, moving on… I totally believe omnia vincit amor. I have something like that tattooed on my back: Love is the Law. It’s in elvish, as I’m a freaking nerd, but it’s there anyway. Perhaps I should’ve tattooed it somewhere I could see as I don’t get the chance to look at my back very often. Take care and be safe!
Cynthia, a moça continua insuportavelmente atrevida, é uma criatura sem conserto, e você está certa, ela não teria deixado de fazer nadica do que fez. O que de certa forma me ajuda ou eu não teria tanta história pra contar. Favorite, sim, a página, fico muito honrada, só não demore tanto pra voltar! ;)
Quanto ao texto de Goethe – absoluto – foi um complemento ao comentário do Zé Roberto, quando ele disse “o tempo levou tudo isso (?)”… E fiquei aqui pensando, nós trazemos conosco todos aqueles que fomos ou o tempo os levou embora? Belo gancho para um próximo texto… =D beijos!
Estevan, não tenho tweeter. Tenho Facebook e tumblr. Os links estão na página A Autora.
Não esqueça de nossa convicção de que esta vida não termina aqui.
Gosto de moças atrevidas, gosto da forma como se lançam na vida sem se preocupar com os ponteiros. A vida pensa que surpreende, mas no fundo que se surpreende mesmo é a vida. Isso sim é interessante.
Adorei seu texto, é um daqueles que a gente precisa ler e ler muitas vezes e durante a lua minguante fica melhor ainda. Como se fosse o momento de virar a página perceber que o tempo só machuca quem dá atenção demais pra ele. Bacio
Ana Paula menina,
o apartamento está com todas as janelas inteiramente abertas e inundado da mais fresca e deliciosa brisa…,nem parecendo que ainda pouco estava fechado…;é a prova de que as palavras que moram no seu coração, não podem mais ficar contidas, e que elas querem ganhar a liberdade de percorrer os mundos !
Voilá…Beijo grande.
Regina.
Verdade, Mo! Essa passagem é apenas parte da jornada, né? Mas temos que caprichar pra não “desperdiçar a encarnação”! rsrs ;)
Lunna, muito certo isso: as vezes somos nós que surpreendemos a vida! :) Ela quer que eu tenha 42 anos, eu teimo em ter 20, e quero continuar a ter, pelo menos no que diz respeito ao atrevimento e a aproveitar cada momento com intensidade. Bem lembrado, aproveitemos a lua que mingua, repensemos coisas e deixemos de dar tanto bola pro tempo. Amei seu comentário! Beijos!
Regina, você sabia que quando você passa por aqui a brisa sopra ainda mais fresca janelas a dentro? Beijos!!!
Querida!
Não consigo descrever o que senti lendo o seu post… chorei que nem criança… coração apertado!
Mas fiquei muito feliz por vc estar de volta! Sacudindo a gente, fazendo-nos pensar, mesmo que não seja essa a sua pretensão (talvez vc me diga isso… rs).
Obrigada pelo lindo texto, obrigada por estar de volta, saiba que torci muito por isso… e que, sempre torço muito por você (ainda que de longe…)
beijos!
Dani, que saudades!!! De verdade. Cadê você??? Beijos!