
Velas multiplicam luz. Era esse seu primeiro pensamento sempre que o fósforo aceso tocava o pavio branco, endireitado com cuidado, e a chama se formava, oval e límpida, iluminando o quarto.
Não raro faltava luz onde morava, numa área quase rural. Bastava um vento mais forte e caía a força, como diziam lá em sua terra. E à luz de velas ela escrevia ou lia um livro, muitas vezes ouvindo a tempestade se aproximar, os trovões rolando de manso, descendo a serra e afagando o arredondado dos morros. Um som de aconchego, como o avermelhado da luz que tremulava frágil, lançando sombras sobre as páginas, transportando de súbito seu quarto para tempos passados.
Tinha um amor especial por velas e pela maneira como uma nova luz surgia sempre que um pavio tocava outro. Muitas vezes nem esperava pelas tempestades de verão, apenas apagava as luzes e permitia que a delicada luminosidade aquecesse seu coração contador de histórias.
Era preciso forçar a vista e ouvia de vez em quando a voz do pai: lendo no escuro, filha? Aliás, eram essas as últimas palavras que guardava do pai ainda lúcido. Ele na cama do hospital, ela sentada à cabeceira, livro nas mãos, apenas a luz do banheiro acessa, a porta encostada. Lendo no escuro, filha…
Gostava também de igrejas. Não era religiosa, mas se sentia, dentro delas, guardada da maldade do mundo. Gostava de visitá-las especialmente quando viajava. Ali havia sempre velas, muitas, e nas capelas desconhecidas, escolhia um pequeno círio, tocava o pavio numa chama qualquer, e pedia: segurança nos caminhos, proteção para os que ficaram.
E um dia, sob o teto de madeira de um templo simples, testemunha de quinhentos anos de pedidos de fé em forma de chama, prestes a multiplicar luz mais uma vez, ela ouviu:
- Jamais faça isso!
Virou-se surpresa e encarou a velha senhora de cenho franzido e véu nos cabelos que a repreendera, num pedido mudo de explicação para aquele alerta dado com veemência.
- Nunca se sabe o que pediram aqueles que acenderam essas velas! Você pode pegar algo de ruim!
Ela sorriu e agradeceu o aviso supersticioso com educação.
E pensou que qualquer um que acendia uma vela e fazia um pedido aos Maiores, pedia com o coração. E pedidos – para que a saúde de um filho melhorasse, para que um trabalho para o marido aparecesse, para que Nossa senhora protegesse o amado ou que um amor retornasse – eram mais fortes quando compartilhados.
E deixou sem hesitar que o pavio da pequena vela branca que tinha nas mãos tocasse uma outra chama qualquer, e pediu que à Vida que seguisse seu fluxo e que houvesse luz: em seus caminhos e nos daqueles que também pediam por si.




8 Comments
Que texto lindo, Ana!
E essa imagem é tão forte, me lembrou uma foto que vi da igreja
de Saint-Maries-de-La-Mer.
Bom dia, Lu! Saudade de você e de quando você e Miss Larrubia blogavam! A imagem foi escolhida a dedo: são as velas da Catedral de Notre Dame! =) E você sabe da nossa história de amor, minha e do Ved, com Paris… beijos, beijos, beijos!
Aninha,
Indiquei teu blog para o prêmio “Bolg Dorado”.
Dá uma olhada lá no meu e segue as instruções para publicação e indicação de teus blogs escolhidos.
Bjs,
Mari
Velas iluminam o ambiente da alma! Acendem o fogo das paixões em jantares românticos…e renovam as esperanças dos que tem fé! muito iluminado esse post! beijos, leandro
Mari, brigada por lembrar de mim para o prêmio! =) beijos!
Oi, Leandro, brigada pela visita! Visitei o Maldita, muito divertido seu blog! beijos!
Oi querida !
Durante milhares de anos o fogo foi assunto de mistério, medo, superstição e adoração.Fico imaginando o homem primitivo extasiado e amedrontado vendo os raios queimando as florestas e os vulcões em erupção transformando a paisagem num inferno de lava incandescente…
Esse fascínio que o fogo exerce em cada um de nós , mesmo nos dias atuais, continua carregando as mesmas superstições os mesmos mistérios e o mesmo êxtase !
Parabens adorei o texto !
Abraço apertado
Deusa, o fogo é mesmo fascinante, desperta algo ancestral dentro de nós, não é? Acho que terá sempre um quê de sagrado…Obrigada pela visita! beijos!