
A faixa de areia batida se estende por alguns quilômetros à minha esquerda e poucas centenas de metros à minha direita, terminando em pedras e mata nativa. A praia é estreita, uns poucos passos e a água molha os pés. Gosto assim, quando é possível me deitar sob o sol bem perto do quebrar das ondas e do respingar da espuma. Apenas dessa maneira, o mar torna-se presença. Apaga céu, desmancha nuvens, dilui pensamentos. Domina o horizonte de mim. Mar de longe é paisagem. Assim tão de perto é criatura: caprichosa, volúvel, soberana.
Às duas da tarde o sol fraco e meio morno, um vento constante e frio e a quase completa ausência de turistas me avisam que a temporada acabou. Foi-se o verão e agora é outono, essa estação que há alguns anos me trouxe uma surpresa e agora esboça outras que ainda não sei quais são.
Nunca dormi numa cama tão perto do mar. O quarto é quase uma extensão da praia, é como se a cama estivesse estendida na areia. A brisa marinha sopra portas da varanda adentro, trazendo a cadência das ondas, tão evidente, tão constante que ainda não sei se embala ou estorva. O mar está dentro do quarto. O mar está dentro.
É noite fechada quando escrevo. Com as luzes da pousada apagadas, o mar lá fora é densa escuridão quase mística; o desconhecido absoluto e imponderável. É maré cheia, e as águas dessa praia de mar aberto – que hoje cedo chegavam mansas com um barulhinho bom e deslizavam pacíficas sobre a areia – agora quebram insurgentes, não marolas mas vagas intensas que falam alto. Da massa escura apitam ao longe os navios que cruzam essas águas. Mais além, o que há mais além?
Cheguei aqui meio perdida, o guia indicava Porto Belo. As luzes à esquerda? Itapema. À direita, então? Meia Praia. E Porto Belo? Mais além. Quase não sei onde estou. Mais além, o que há mais além?
Algum escritor disse que emoções são como cavalos selvagens. Eu digo, não. Emoções são o mar, são essas ondas que se quebram contra rochedos-peito, são águas que desenham histórias de espuma e vento em corações-areia.
Um lado da cama está vazio. Da cama estendida na areia. Mas há companhia. Hoje o mar se deita ao meu lado.
Praia de Perequê – SC




13 Comments
Peço desculpas aos amigos que aqui frequentam pela lentidão em responder os comentários… Na medida do possível, vou respondendo cada um com o devido carinho, são muito importantes pra mim! Mas viajando fica um pouco difícil visitar seus espaços… Quando estiver de volta,tudo volta ao normal! =) beijos!!!!
Nossa Ana, seu diário de bordo está virando um livro de poesias. Daqueles que faz a gente viajar e se encantar.
Que delícia que é acompanhar sua viagem com seus olhos.
Beijos e continue curtindo, pra que nós possamos apreciar também! ;)
Que saudade de ler o seu blog…
Que delícia saber que sua viagem está sendo TUDO ISSO.
Beijo querida!
Paulinha, tá demais os relatos da sua viagem, bem que você falou . . . todo mundo merece!
revivo em você, o que vivi.
viajar sozinha…
que delícia!
beijos
Adorei o post. Aproveite sua viagem.
Viajar é tudo, né? Eu amo o mar, sou litorânea de nascença.
Adorei o título do post, muito poético.
Bjos,
Paulinha
Que lindo… que viagem especial, né?
Oi Dani! Saudade de ler você também! beijos!!!
Zé, fico toda feliz quando você, Paulo ou mamãe comentam! =) Ainda tem muita história da viagem pra contar… Amanhã tou em casa! beijos, brother!
Juli, prazer em conhecer! Viajar sozinha é uma experiência no mínimo… diferente? rsrsr beijos!
oi… sei o que é isto, tambem vivenciei isto… a poucos dias.
http://hodgkineuconheoestecara.blogspot.com/2009/06/se-ocupando-do-ocio.html