
Já não é mais dia, mas ainda não é noite. Os postes da rua já estão acesos e as poças d’água da chuva dessa tarde refletem luz amarelada nas ruas antigas, calçadas de pedras. À minha frente o céu escurece e as águas da baia estão pesadas, inquietas, carregadas do cinza do céu. Os barcos ancorados no píer parecem impacientes, num sobe e desce irrequieto. Ao longe ouço trovões. Eles chegam ecoando mansos, avisando que do mar vem tempestade.
Na rua, nenhum turista, apenas um ou outro habitante local. Imagino que estão todos abrigados do vento frio que chega de longe, de outras terras, para lembrar que hoje o mar não está para peixe. Imagino se os golfinhos (cerca de duzentos deles habitam essas águas) se incomodam com a inquietação que paira no ar, antecipando a tormenta. Acredito que não. Lá nas profundezas onde vivem essas criaturas mágicas, que nunca imaginei ver em seu habitat natural, há silêncio e calmaria.
São Francisco do Sul, Santa Catarina. É minha última noite nesse lugar encantado. Escrevo da janela do hotel, de onde avisto o cais, o antigo mercado e parte da baia de Babitonga. Na verdade há pouco mais do que isso nessa pequena vila de duzentas e poucas casas e mais de quinhentos anos de história. Jamais tinha ouvido falar nela, na terceira mais antiga vila do Brasil, e não teria vindo até aqui se não fosse o Museu Nacional do Mar. E, assim que cheguei, soube que gostaria de ficar.
Há algo aqui. É quase como se eu pertencesse a esse lugar. Talvez a onipresença do mar, quem sabe o colorido do casario ancestral, ou mesmo o barulho cadenciado dos barcos dos pescadores que saem antes do sol para buscar suas redes.
Dessa janela observo a paisagem – já é noite agora – e tento guardar na memória cada som, cada cor, cada movimento desse vilarejo que o tempo esqueceu.
É um hábito que não passa, esse que tenho, de me encantar por um lugar recém descoberto e querer morar nele. Placas de casas para alugar não me passaram despercebidas. Minha cabeça fantasia que este é o lugar perfeito para escrever um livro e já me imagino instalada num antigo casarão, namorando a baia e vendo personagens surgirem e conversarem entre si.
Que seres estranhos somos nós, que não conseguimos estar completamente no presente. Digo mergulhados mesmo, de corpo, alma e espírito, apenas no aqui e agora. Vejam, estou em São Francisco. Corpo presente. E a cabeça em outro lugar, numa outra São Francisco onde pretendo um dia retornar.
Não seria mais simples se estivéssemos sempre, e exatamente, e apenas, onde realmente estamos?




18 Comments
Bom demais! Fotos?
Acabei de por o link! =)
Que encantamento… adoro seus textos, que têm o dom de nos levar aos lugares, de nos fazer senti-los junto com você… abençoada Ana!!!
Ah, bom demais vir aqui e se adentrar em suas linhas de histórias fascinantes!
Meu beijo pra vc!
Sempre tive uma fascinação pela idéia de viajar sozinha, e nas vezes que pude fazê-lo tinhas esses mesmos sonhos de querer morar um tempo naquele lugar encantador.
Estou adorando acompanhar trechos da sua viagem!
Beijos
Que delícia de texto, Ana.
Por um instante senti a brisa suave do fim de tarde batendo no rosto, senti o aroma que esse vento traz, depois de uma chuva refrescante e pude até ouvir o barulhinho bom que a água faz. Som gostoso e que traz muita inspiração.
Fiquei imaginando a imagem de vc na janela escrevendo seu texto e pintei na minha cabeça um quadro lindo. Pena que não tenho tal aptidão.
Estou adorando as fotos. Seu cenário está lindo e, claro, inspirador!
Beijos
Aninha,
incrível como os escritores natos conseguem colocar em linhas os sentimentos mais particulares, aqueles que parecem nosso e não de quem escreveu. E mais, conseguem materializar sentimentos que, talvez pela insensibilidade, não nos damos conta nem que existem. Para mim, esse trecho foi o Melhor: “Vejam, estou em São Francisco. Corpo presente. E a cabeça em outro lugar, numa outra São Francisco onde pretendo um dia retornar”.
Por favor, não pare de nos presentear com seus textos.
Um beijo
Fique com Deus
Tatá
Silene, brigada por suas visitas e pelos elogios carinhosos! =) Um beijo bem grande!
Sam, sempre bom vê-la por aqui! =) beijos!!!
Oi Andréa! É muito engraçado isso, todo lugar que paro, penso, ahhh, quero morar aqui! rsrsrs Queria ter mais tempo para ir contando histórias… Mas se parar para contá-las não tenho tempo de curtir os lugares! =) Na medida do possível, vou escrevendo! beijos!!!
Fla! A viagem está sendo uma inspiração mesmo! Pena é a falta de tempo para escrever mais, geralmente chego morta no hotel ao final do dia! Mas quando terminar, muitas histórias virão! =) beijos!!!
Tatá, que saudade de você! Já me disseram isso, que os escritores conseguem colocar em palavras aquilo que sentimos e não sabemos explicar… então talvez não sejamos escritores, mas apenas tradutores daquilo que vai na alma humana… e talvez seja por isso que gostamos tanto de ler! =) beijos, querida!
Olá querida!
Gostei mt daqui e estou a te linkar lá em meu blog e a te seguir tb tá?
Voltarei sempre!
Bjo!
Oi, Ana,
Que belo lugar, que bela paisagem! Inspirador!
Tem sessão nova lá no “Canetas Coloridas”.
Bom fim-de-semana!
Bjos,
Paulinha
Que lindo!! Estou adorando vc partilhar a viagem com a gente! Tem um livro que eu adoro, chama : Nos pés Alados de Mercúrio.
Já leu? Vai amar!!
beijos muitos e imagino um anjo dourado sobre tí minha linda,pra sua viagem seja encantada!!=D
Érica, prazer em conhecer! Já estou te seguindo também! =) beijos!
Oi, Paula! Passo pra te ver assim que der! beijos!!!
Ju, saudades!!!! Não conheço o livro, mas já adorei o título… beijos, querida!