Ficcção por Ana Paula Sampaio

Deitada na areia macia cor de creme, úmida dos respingos da maré que crescia no fim de tarde, esticando as lambidas das ondas que vinham cada vez mais perto roçarem seus pés descalços e mergulhados naquela frescura, ela fechava os olhos e sentia a onipresença do Mar.
Mesmo que não pudesse enxergá-lo, sua música energética e ritmada penetrava sob sua pele ainda morna do sol do dia. Às vezes um sussurro baixo e melodioso, então o estrondo de uma vaga, o Mar cantava e sua alma virava silêncio.
Ela acreditava no Mar como quem acredita num deus. Sua imensidade era cura, seu infinito o alívio daqueles que podem enxergar horizontes sem fim. Os povos de beira-mar, ela pensava, podiam olhar além. Não como ela, que crescera entre montanhas e só podia olhar para cima como quem suplica amparo do céu. Quem nasce com os pés na areia, ela dizia, têm olhos que tomam outro rumo, o da linha do horizonte: delicadamente azul em dias de calmaria, crespo e insurgente durante a ressaca, profundo e avassalador quando vem tempestade. O litoral mudava sua alma, esticando-a até que fosse pousar no horizonte. Além.
Mas o melhor da praia era o vento. Do mar soprava uma brisa limpa e constante, que cheirava a sal e tardes de vadiagem indolente. Ela amava esse vento, que emaranhava os cabelos mas afagava a pele e alentava o espírito, e passava por ela como quem vinha do futuro, do lugar onde encantos esperavam pacientes que ela esticasse a mão e os tocasse.
Abriu os olhos preguiçosos de sono contra o sol fraco que descia entre as árvores e se lembrou de sua infância.
Tinha medo de vento quando era criança. Lembrou-se de uma tarde perdida no tempo, num dia em que começou a ventar.
Primeiro, vieram lufadas fracas, que balançaram as copas das árvores e encheram o fim de tarde belohorizontino de um farfalhar seco que parecia chuva. Então bufou forte e lambeu do chão as folhas caídas do inverno, rodopioando-as no ar, atirando-as novamente ao chão. Ela pensava no Diabo, o Diabo de Guimarães. Varrendo as ruas com seu sopro de maldade, dobrando esquinas, uivando nos telhados dos sobrados antigos da Floresta, assombrando as ruas desertas de Santa Tereza, levando a passear as almas inquietas do Bonfim. E veio um céu carregado, cinza metálico cor-de-tristeza. Uma chuva fina caiu, esfriando a noite. Nas ruas era tudo silêncio, fora o som daquilo que o vento arrastava. No dia seguinte não saiu, ficou em casa, olhando o vento da janela. O Diabo lá fora, espreitando, esperando, perambulando trôpego por becos e soprando, soprando, envolvendo a cidade com um hálito frio de desgraça, de desolação. Alma arrepiada, ela fechava, bem fechadas, as janelas, cerrava cortinas. Nunca soube explicar que medo era esse de vento, do vento sobrenatural de agosto.
Não tinha medo do vento marinho, nem mesmo da ventania que despencava do céu junto com os temporais de verão, quando o estrondo do Mar namorava o ribombar dos trovões. Mesmo aquele vento era cura, era o toque transformador que acordava dentro dela a beleza que ela via fora, na imensidão pintada de sua cor preferida.
Quando a maré finalmente subiu e uma onda atrevida a lavou por inteiro, ela se levantou e caminhou para casa. Batizada e perfumada de sal, encheu mais uma vez os olhos de Mar, como quem contempla o rosto do amante querido.




20 Comments
Muito bacana! Tranquilidade 100%!
É mais ou menos o tom que quero dar ao PdA… =)
Então não duvido do sucesso!!! =D
Agora tá virando poeta…
bj
Perfeito… me levou pra bem pertinho do mar… adorei!
Oi Mari! Amiga, nunca consegui escrever uma poesia, acredita? rs Pelo menos nada digno desse nome… =)
Silene, sabe que a mim também? rs Enquanto escrevia cheguei a ouvir o barulho dele… Que saudade de mar! beijos!
Lindo texto. Senti uma grande leveza ao lê-lo.
Aproveitando pra cobrar uma visitinha no meu: http://banalizando.blogspot.com
É mais fútil, menos profundo, poético, mas também é válido.
Além disso, está com layout totalmente reformulado. :D
Grande beijo, Flor!
Paz!!! Infinitamente paz, é o que esse texto transmite.
Já ouviu dizer que determinadas comidas, ficam melhores depois de curtidas?
É mais ou menos isso que está te acontecendo, Ana! A cada texto, uma nova e indescritível emoção se instala em meu peito.
Serei repetitiva sempre: sou sua fã! =D
Beijos e obrigada por trazer essas emoções pra todos
Foi como uma carta de rendição
aqui eu a assino:
confesso e me rendo: preciso urgente de mar!
poético e emocionante como sua cronica
ou algo como aqui nós no interior falamos:
“sargar a bunda”
volto na proxima
beijos
Renata, obrigada pela visita! =) O mar me chama de uma maneira tão forte que entou ensaiando passar uns 3 meses na companhia dele… me breve! =) beijos!
Que beleza de imagem… Lendo o texto, mar e vento se achegam – mesmo que na madrugada quente de uma São Paulo concretada, não tenha água nem brisa…
Beijo grande.
pobres amantes sempre submetidos ao sobe e desce das marés.
beijos e obrigadapela visita.
mariah
Sâo Paulo, São Paulo… saudades… Será que um dia, de novo, vou fazer parte dessa cidade? beijos!
Mariah… é triste isso, não? beijos!
Oi Ana!!! Sou tua amiga brasileira que mora na Espanha!!!
Muito legal o seu post. Eu sinto falta do cheiro do mar. Nasci no Guaruja, e cada dia estava em contato com a praia. Você tem razao quanto a uma coisa: quem nasce perto do mar, tem um olhar mais além….nao sei explicar.
Sempre imaginei o que existiria ali naquele monstro tao maravilhoso e imenso….
Ai!!! Saudades da minha terra, isso sim!!! hehehehehehehe
Aqui moro perto das montanhas…para buscar auxilio, tenho que olhar pro céu, e nao pra frente…hehehehehe
Se cuidaa!!!
E continua escrevendo….
Bjs
Oi Angélica! Ai, imagino a saudades que você tem do mar, do Guarujá… Olhar pro mar é olhar pra frente… Por enquanto eu também vou olhando só pro céu mesmo! rs beijos e te cuida!
Só seu comentário no meu blog hj, Ana, acredita???
Zilhões de desculpas!
Esteja à vontade pra linkar! Adooooro seu blog!
Só li… tou comendo palavras… sorry!
Oi Silene! rs Tava no Carnaval né, amiga? hehe Já tinha linkado de qualquer jeito, também adoro seu blog! =) beijos!