Teias Invisíveis

Estou tentando parar o carro na Rua Espírito Santo, entre Álvares Cabral e Goitacazes, um quarteirão bastante movimentado do centro de Belo Horizonte. Avisto um estacionamento, tento colocar o carro pra dentro, há outro carro saindo, o homem ao volante me olha impaciente, dou uma ré e acabo espremida numa minúscula vaga de rua mesmo. Em BH, paga-se para estacionar na rua, como na maioria das capitais.

Desligo a chave e olho em volta, esperando o flanelinha que vai me vender o tal talão da prefeitura por três reais, o mesmo que eu posso comprar na banca de jornal por dois. Quem se aproxima é uma senhora, com o colete de credenciamento que a prefeitura criou para guardadores e lavadores de carros, numa tentativa de organizar as atividades dessa turma. Olho para o crachá em seu peito: Josefa. O rosto é simpático, deve ter seus 60 anos, pele mal tratada, cabelos mal pintados de louro.

- E aí, moça, posso por o talão?
- Quanto é?
- Três reais.
- Pode sim.
- Quer que eu preencha?
- Por favor – eu respondo sorrindo – pensando que minha preguiça de andar até uma banca acaba de me custar um real.

Enquanto ela preenche o talão, eu aguardo no carro, vidro aberto. Dona Josefa puxa papo:
- Sabe, minha filha, são vocês que me ajudam a viver…
- Nossa, que bom! – é tudo que me ocorre dizer diante da idéia um pouco assustadora de que eu e meu humilde real estamos ajudando Dona Josefa a sobreviver.

- É, são vocês, sim. E eu por minha vez ajudo o Seu José. Tá vendo aquele moço com um esopor ali na esquina? É o seu José. Ele vende pão com mortadela por um real. E suco também, por trinta centavos. Ali do outro lado da rua, tem o Evaldo que vende coxinha e chup-chup. Eu também ajudo ele. E assim todo mundo vai se ajudando. A mulher do Evaldo ajuda ele fazendo as coxinhas, ele ajuda ela vendendo…

As teias invisíveis, sempre elas. A Vida, régua mágica em punho, traça mais uma linha dessa teia: Ana – Dona Josefa.

Desço do carro, vou ao banco e na volta ela ainda está lá. De longe, sorri e acena. Eu sorrio de volta. Sem saber, ela está me ajudando. Quem me conhece sabe que confio pouco na espécie humana, prefiro a sinceridade e inocência dos bichos que se gostam de mim, lambem minha mão, se não gostam, mordem. Numa tarde de terça feira atribulada, sol quente e centro de cidade, Dona Josefa me fez pensar com um pouco mais de carinho no ser humano e sua fragilidade/força. E nas teias invisíveis, sempre elas. Que nos unem, nos aproximam, cruzam vidas umas com as outras.

Sem saber, sem querer, nos ajudamos.

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