Estou terminando um tratamento que requer que eu vá ao hospital todos os dias, 5 vezes por semana. A aplicação dura apenas 3 minutos e eu deveria estar lá sempre às 10:50 da manhã, horário que eu mesma escolhi e que jamais consegui cumprir. Como meus dias são muito diferentes uns dos outros, espero uma brecha em minhas atividades e vou até lá. Segundo me informaram, não há problema nenhum em fazer assim, desde que eu esteja disposta a esperar que todos que estejam lá, comparecendo com disciplina no horário em que marcaram, sejam atendidos primeiro. Acho justo e não vejo problema.
Às vezes dou sorte. Encontro um ou dois pacientes aguardando e, como é tudo muito rápido, em 15 minutos a missão está cumprida.
Hoje dei sorte mais uma vez, embora a salinha de espera estivesse apinhada de gente. Mas é que a Vida resolver me presentear com um daqueles encontros onde alguém cruza nosso caminho e deixa um pouco de luz, daquele tipo que que desembaça o olhar e nos permite ver como as coisas realmente são se assim nós o permitirmos.
Lá estavam alguns conhecidos, uma senhora que vem todos os dias de Sete Lagoas com o marido e a filha e outras pessoas que já conheço de minhas idas diárias ao hospital. A conversa ia animada, trocávamos idéias, comparávamos diagnósticos e quieto no seu canto um senhor nos observava. Alto, pele negra e cabelos grisalhos, esguio e elegante em sua calça social e camisa branca impecáveis, aparentava seus 68 anos e algo em suas maneiras inspirava tranquilidade e sabedoria.
Talvez encorajado pela animação da conversa, ele se junta a nós. Comenta que já está ali esperando há mais de uma hora e concordamos que realmente hoje parece que a coisa vai demorar. Ele comenta também que teve um câncer de estômago. Queremos saber como está indo o tratamento e ele esclarece:
- Ah, mas isso foi há mais de 4 anos!
Seu José Maria estava ali apenas acompanhando o irmão mais novo que é quem está se tratando. Que bom, respiramos aliviados! Perguntamos se ele está curado, ao que ele responde, animado:
- Claro, minha filha, o segredo é a cabeça! Se você a ocupa com coisas boas e esquece da doença, ela acaba se esquecendo de você!
Chega minha vez de ser atendida e em poucos minutos estou liberada. Lá fora cai uma grossa chuva de verão e encontro meus amigos de Sete Lagoas esperando que ela dê uma trégua. Também prefiro esperar, tomo um café e acendo um cigarro. Continuamos nossa conversa e de repente lá vem Seu José. Empertigado e de óculos Ray-Ban preto, ele se aproxima de mim:
- A senhorita me desculpe, mas poderia me arranjar um desses?
- O senhor fuma, Seu José?!, perguntamos surpresos, quase em coro.
Com uma gargalhada ele responde:
- Há mais de 65 anos!
E nos revela sua idade: tem 80 anos. Quando comentamos que ele aparenta bem menos e parece muito bem de saúde, o simpatissímo senhor nos esclarece o motivo de tanta vitalidade:
- Deve ser porque danço muito forró!
Seu José dança todo sábado e domingo e também algumas noites na semana. Se deixa de ir os amigos vão buscá-lo em casa, segundo ele por medo de que tenha morrido. Duvido, garanto que é pela companhia mesmo. Ele é ótimo.
- Ah, adoro dançar um forró!, ele nos conta.
- E adora as morenas bonitas que ficam lá só esperando pra dançar com o senhor, né, Seu Jose!, brinca a moça de Sete Lagoas.
- Isso também! Isso e as caipirinhas que eu tomo antes!
Sabe, Seu José, eu não sei se cigarro mata. Ou bebida. Se perguntar a meu médico ele vai dizer que sim. Muitos que estão lendo esse texto, afirmarão com veemência que sim. E isso me fará sorrir, como sempre faz, como se não fumar fosse algum tipo de passaporte para a imortalidade.
Que fique bem claro que não estou aqui a fazer apologia de cigarro, bebida ou qualquer outro hábito pouco saudável. Acredito que devemos, sem paranóia, fazer a nossa parte em relação à própria qualidade de vida, equilibrando cuidado e prazer.
Dito isso, posso enumerar outras coisas que matam. Tédio e desânimo matam. Amargura e raiva envenenam. Pessimismo e sua inseparável companheira tristeza (alguém já viu um pessimista feliz?) são uma pequena morte a cada dia. Assim como a falta de entusiamo. De coragem. De fé: nos ciclos que inevitavelmente se fecham, nas dores que sempre passam, nos fluxos que levam e trazem aquilo que precisamos e que têm seu próprio tempo. Nos intervalos felizes entre duas tristezas. Na sabedoria da Vida que traça teias invisíveis entre nós e aqueles que cruzam, abençoadamente, nosso caminho.
Seu José, do alto de seus 80 anos de vigor e alegria me fazem pensar em quantas pessoas estão sentadas nesse momento na sala de espera da Vida. Aguardando que o emprego venha, que o filho se forme, que o mal se cure, que o dinheiro sobre, que a violência urbana diminua ou que a felicidade caia, sem esforço, na própria cabeça.
Deus permita, Seu José, que o senhor continue fumando, dançando forró e tomando sua caipirinha até os seus 110. Não duvido nada que isso aconteça.




17 Comments
Ah, os idosos!!! Sempre eles, sábios, mansos, porém nem sempre prudentes! rs
Amei seu texto Ana (que novidade?!?!) e concordo com Seu José, quando diz que a cabeça esquece da doença e ela nos esquece também.
Isso eu digo o tempo todo, mas tanta gente insiste num medo banal. Medo que deveria ter existido antes, não depois!
A vida só é saudável pra quem se permite ser saudável. Sorrir, brincar, amar, dançar, se divertir, enfim, viver. Isso é saudável… todo o resto é sobrevida! ;)
Beijo
Adorei o texto, Mo! Não sei se vc percebeu, mas é para isso que tenho apontado minha vida! Tá: ainda não consegui sucesso no quesito ”convivio social” mas um dia eu chego lá! Beijooos!
Coisa linda de post! Mais uma vez vc acertou: eu estava precisando ler isto!
Ana, linda observarvação! Nossa saúde e qualidade de vida estão dentro da gente. O pensamento positivo e elevado é uma grande chave para estarmos bem, felizes e em paz.
Saúde e muita paz para vc!
bjim!
Fla! Sim, os idosos! =) Talvez a sabedoria venha justamente da falta de prudência, já pensou nisso? Quem não arrisca, não aprende… hehehe A Vida é aquilo que permitimos que ela seja! Ah, se pudessemos entender toda a extensão do nosso poder de criar… beijos, querida!!!
Mô, acho que você deu um grande passo ao encontrar seu norte e agora a bússola está apontada para ele! O resto vai vir! =) beijos, amo você!
Sabrina, só com o pensamento elevado e a mente focada no que é bom e produtivo podemos alcançar a tal felicidade… Muita paz e saúde pra você também! =D
Leandro, que bom que veio me ver! Adoro quando um dos meus textinhos tem o poder de tocar alguém que sabe tanto como você. Beijos, saudades!
Em tudo somos atribulados, porém não angustiados
Perplexos, porém não desanimados
Perseguidos, porém não desamparados
Abatidos, porém não destruídos….
Apóstolo Paulo
Que DEUS abençoe
Alexandra, Paulo sabia das coisas! =) Sem amor nós nada seríamos…
Ana, se na vida a única certeza que temos é a morte, pra que tanta prudência, ainda mais na melhor idade?
Passamos a vida toda seguindo padrões, esterótipos criados pela sociedade, que julga o que é certo e o errado. Tem hora que é necessário se libertar disso e, simplesmente viver!
Espero não demorar muito pra aplicar na vida aquilo que, tão sábiamente, o Seu José nos ensinou e que vc nos transmitiu de forma tão graciosa!
Um beijo carinhoso
Olá, Ana,
Não sabia que vc me visitava! Obrigada. Minhas tentativas de manter aquele espaço atualizado andam a cair sempre por terra nos últimos tempos…
Adorei aqui – muito bonito e delicado -, e amei o seu ‘Sobre Mim’ – muito original e alegre.
No mais, pela sua história vejo que a dança mantém a vida em chama. Vou praticar mais e, quem sabe, chego até os 80. E sim: é mesmo um sossego a solidão de uma noite com Elton John. :)
Beijo enorme.
Ana, querida, lindo seu post também! =)
E vc nem imagina como fico feliz qdo vc me visita! ;)
Bjo grande =**
Ana Paula !!
Te puxou, hein, amiga???
Amei o texto. Amei o sr. José, seu forró e sua caipirinha.
Essas teias invisíveis são Sarayu que passa bem suave e nos mostra aquilo que não conseguimos ver com esse olhos que já não podemos mais doar e que a terra, inevitavelmente comerá.
Não tenho dúvidas que os olhos do coração enxergam muito melhor e não precisam de óculos.
Dá uma passada lá em casa que tem coisa nova na mesa.
bjkas
Mari! É Sarayu, sim, amiga, esse vento abençoado de inspiração! =) Já passei lá pra te ver! beijos!
Pois é, Fla… Todos nós vamos morrer, portanto a questão é: quem de nós vai realmente viver? =) beijos!
Ana,
Que texto lindo!
Aliás, adorei o site. Voltarei mais vezes.
Como diz a Kris Carr, que eu entrevistei para uma matéria na Criativa, a vida é uma condição terminal, então só nos resta vivê-la intensamente.
Bjs
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[...] espera do Hospital São Francisco nas minhas últimas sessões de radioterapia. Já falei sobre ele aqui no blog. Nosso último encontro permitiu que eu conhecesse um pouco mais de sua história e seu [...]