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Promessas e faxina

É  domingo – dia da semana longe da minha predileção – e a casa está quieta. Todos estão fora e apenas Juju, enrolada aos pés da minha cama, focinho escondido entre as patas, abrigado da friagem do inverno belorizontino, me faz companhia.

Calma e quietude, delas desfruto, artigos tão raros hoje em dia, ainda que apenas por hoje, nesta tarde preguiçosa, fresca e azul.

Ensaio, como disse no post anterior, uma volta. Pretendo dar à minha porção “escritora” uma nova chance, afinal um voto de confiança merecemos todos, até os indolentes e indisciplinados.

Mas antes, porém… há promessas a fazer ou o barco faz água de novo. Não, não prometo nada a vocês que têm a bondade de passar por aqui pra me ler. Dirijo minhas promessas a essa moça que tanto tem a dizer mas se cala diante da avassaladora mania de perfeição que possui.

Andei trocando emails com um colega escritor,  três livros publicados, um mundo a mais de experiência que eu, e que , ainda assim, já caiu em armadilhas parecidas com as que preparo para mim mesma.

Ele me diz: “…também padeço certas horas… Tenho pra mim que quem tem obrigação de levar um blog como uma padaria – todo dia com pão novo – é jornalista ou celebridades. Nós mortais comuns não, por ora…”

Portanto é esta minha primeira promessa: diga o que tem que dizer sem se esquecer que há dias em que é melhor se calar.

Recebi dele a mais preciosa das regras: “Quando se cria não se julga. Quando se julga não se cria mais.”

Parece óbvio, eu mesma sempre soube disso. Mas muito mais fácil é dizer do que fazer. Agora mesmo, enquanto digito esse post, há uma irresistível vontade de rolar a página e reler. Resisto. Só o farei daqui a pouco, antes de publicar. Prometo.

E prometo ainda que escreverei apenas para cumprir o que o ato de escrever me cobra: que eu partilhe minha visão do mundo que, imaginem, tem até ajudado uns e outros que por aqui passam vez em quando. A maestria, a perfeição, essas pertencem aos Amados, aos Guimarães, aos Saramagos. Prefiro escrever de maneira medíocre a deixar de me expressar como gosto e como posso.

Por fim, meu amigo escritor me diz: “A pressão realmente é uma vizinha que não pode morar perto da gente-escritor nunca.”

A pressão e a culpa por não escrever caminham juntas. Foram as principais razões que me mantiveram afastada da página em branco. Ora, ninguém me pressiona a não ser eu mesma. Sim, euzinha, aquela que adora se culpar por não ser perfeita.

Portanto, prometo e afirmo, do fundo da alma: prefiro ser prolífica a ser perfeita.

No início desse ano nos mudamos, meu marido e eu, para um apartamento em São Paulo. Não tenho idéia de quanto tempo ficou fechado antes de nos receber como inquilinos. Decidimos nós mesmos arregaçar as mangas e fazer a faxina.

Quando abri o armário do quarto, pensei que as prateleiras de madeira estavam pintadas de bege. Não. Era apenas a mais grossa camada de pó que eu já havia visto na vida. Foi preciso aspirador, espanador, panos molhados e detergente até que eu pudesse colocar nelas minhas roupas limpas e bem passadas.

Quem já se aventurou a cometer uma faxina desse porte sabe que pó acumulado de meses não sai assim com uma esfregadela. É preciso a mais arraigada disposição, paciência e capricho.

E assim vou voltando aos poucos. As janelas já estão abertas, os cômodos arejados.

Promessas e vassoura em punho, espero o sol da inspiração bater em minha sala.

Saudades

Passo por aqui vez em quando, coração apertado. Meu lar virtual parece hoje um apartamento fechado, com janelas empoeiradas e lençóis a cobrir os móveis. Como proprietária, um pouco desleixada, é verdade, venho, abro um pouco as janelas, recolho a correspondência atirada por debaixo da porta e volto a trancá-lo. Que saibam, então, que completamente abandonada esta morada não está.

Sinto saudades de quando habitava aqui aquela a quem as palavras vinham fácil, dóceis, como um cão que apanha confiante o alimento da mão do dono. Era assim que elas vinham a mim, as palavras. Mas confiança, uma vez perdida, precisa ser de novo conquistada.

Sentimos falta uma da outra, eu e a página em branco. Falta algo e a Vida pede que o vazio seja novamente preenchido. Há muito ainda o que dizer, mesmo que eu teime em afirmar o contrário. Nem sempre a gente pode com a Vida e com aquilo a que ela nos destinou.

Ensaio uma volta, como uma bailarina insegura que calça sapatilhas de ponta depois de tanto tempo. Hesitante, procuro o equilíbrio e a leveza que um dia possuí, os passos ainda incertos. Mas se o corpo não esquece os movimentos também a mente não esquece as idéias, apenas a forma exata de expressá-las.

É muito bom estar aqui novamente.

Como se escreve um livro?

Photobucket

Tenho pensado em São Francisco do Sul estes dias. Estive por lá coisa de um ano atrás e, vez em quando, São Francisco deixa meu coração – onde mora – para me vir à mente, como um consolo, um alívio em saber que se um dia não houver mais nada, haverá São Francisco do Sul. Não sei por que.

Ou ainda…

Faz tempo perdi a sensação de pertencer. Como quando se coloca na mesa um prato perfeito e alguém diz, sim, delicioso, mas falta… Algo salta aos olhos quando tento me encaixar onde deveria estar, onde já estive, e me separa do entorno. Estou solta e sozinha num espaço que foi, pouco tempo atrás, uma oficina onde as palavras eram as ferramentas.

Como se escreve um livro? Dizem que não há regras, ou ainda, há tantas maneiras de escrever quanto há escritores. Não existe uma receita. E quisera eu houvesse uma.

Como se escreve um livro? Eu acho que sei. Primeiro, a gente começa. Então recheia. E coloca um ponto final.

Escrever – um livro, um conto, uma mensagem de celular ou até uma lista de compras, que seja – me colocaria de volta onde preciso estar. Mas falta algo, como a pimenta naquele prato ou um pouco mais de sal naquele outro.

Sonhei que estava grávida noite passada. Uma sensação de horror tomou conta de mim, como sempre acontece, sendo esse um sonho recorrente. E o alívio ao acordar. Aí está: é preciso estar pronta para dar à luz.

Preciso me reencontrar com Clara. Relembrar como ela é, como pensa, o que ela sente, e isso nem sempre é fácil, porque em Clara há dor, questionamentos e infinitas perguntas sem respostas e todas as possibilidades do mundo pela frente. Mas uma vez que a concebi, ela é de minha responsabilidade. Se ela veio até mim de alguma forma, é porque precisa que sua história seja contada.

Para contar a história de Clara preciso de São Francisco. De suas ruas carregadas de história, das águas inquietas da Baia de Babitonga, ora pacificamente azuladas, ora desfiguradas pelo cinza que se derrama lá de cima, e do mar, do mar, que se abre infinito para encontrar o céu, como minha alma se abre todos os dias sem que ninguém perceba.

Não posso estar em São Francisco. Desejo então que, de alguma forma, ela esteja em mim, nas imagens que capturei com meus olhos, como as redes dos pescadores capturavam o alimento do dia, quando lá estive e pude ver. Que eu possa ver o mar onde ele não está e sentir seu hálito salgado me soprar palavras, quando eu em vão procurar por elas. Que o mar possa estar dentro, como está dentro um mundo inteiro que, quisera eu, pudesse mostrar.

Ps – Clara é a personagem de um romance começado e abandonado, porque eu estava ocupada demais tentando ser quem não sou.

Feliz Natal, Feliz Retorno

O último post que escrevi foi há 2 meses. Não foi apenas o último post. Confesso: foi o último texto. Fora anotações e pesquisa para o romance, e alguns esboços de capítulos, eu nada escrevi. Na verdade, nem mesmo voltei aqui. Foi como cobrir os móveis com lençois, fechar a casa e partir.

Há uma frase que está presente na maioria das coisas que escrevo: a Vida guarda surpresas. Tenho uma crença profunda nos fluxos, na sabedoria dos ciclos, que se abrem e se esgotam em seu próprio tempo, sem necessariamente obedecer aos meses do calendário.

Quando me preparava para a dedicação exclusiva  a Porto do Acaso, meu primeiro romance, a Vida decidiu que não era a hora e nos presenteou, meu marido e eu, com grandes e longamente desejadas mudanças.

Fecho 2009 iniciando uma nova história: de mais prosperidade, de mais qualidade de vida, de mais aventuras há muito desejadas e, acredito, profundamente merecidas. Não tive oportunidade de parar e escrever – que é atividade solitária, introspectiva – mas de apenas viver, mergulhando até molhar os cabelos em cada nova e surpreendente experiência. O momento de parar e relatá-las há de chegar em breve.

Dito isso, me deixo contagiar pelos votos dos amigos leitores e desejo que, assim como a Vida me surpreendeu no fim de 2009 com presentes embrulhados nas cores dos meus sonhos, Ela venha também trazer a vocês tudo aquilo que está em seus corações.

Alegria, Amor, Luz. Para todos, sempre.

Reflexões

Reflexões, de James Emanuel,  é o nome do blog que devo visitar e analizar como tarefa da BlogGincana de outubro. Se você ainda não conhece essa divertida forma de interagir com vários outros blogs e autores, clique aqui para saber mais.

Vamos às tarefas:

Escolhi a primeira postagem do blog, a letra da linda Inquietação, de Ary Barroso. O tema com certeza me agrada muitíssimo, pois adoro os sambas e marchinhas não só de Ary Barroso, mas também de Lamartine Babo, Braguinha e outros.

Não conhecia o Reflexões, mas me agradou muito a visita.

O blog é recheado de poemas e passagens de textos de escritores consagrados. Há também posts sobre cinema e arte.  Até aí, nenhuma novidade, mas o bacana é que o autor deixa sempre, no final do post, um link para que você saiba mais sobre o objeto da postagem. Uma ótima forma de explorar e conhecer novos escritores e poetas. Há vários que eu não conhecia e vou aproveitar a oportunidade. Pretendo voltar sempre, assim como explorar os arquivos! =)

Como imagem, escolho a ilustração Europa e o Touro, do post sobre pintura vermelha em cerâmica.

Este post faz parte da BlogGincana de Outubro, promovida por Expresso da Linha e Varal de Idéias.

Cento e poucos contos

katherine+Mansfield

Nascida em 1888, Katherine Mansfield viveu uma vida breve, turbulenta e triste.

Em 1908, mudou-se de sua Nova Zelândia natal para a Inglaterra e entregou-se à boemia, como era comum aos artistas da época. Em 1911, publicou seu primeiro livro, uma coleção de contos, In a German Pension. Contraiu gonorréia por volta desta época e sofreria com dores de artrite pelo resto da vida. Desencorajada pela falta de sucesso do livro, mandou uma história leve para uma revista chamada Rhythm. A história foi rejeitada pelo editor, John Middleton Murry, que pediu algo mais sombrio. Katherine respondeu com “The Woman at the Store”, uma história de assassinato e doença mental que Murry chamou de “de longe a melhor história mandada à Rhythm.”

Murry visitou Katherine no seu apartamento onde ela lhe serviu chá em tigelas porque não possuía xícaras. Atraída por ele, o convidou a se mudar para o quarto de hóspedes logo após sua publicação e, em seguida, eles começaram seu relacionamento conturbado que incluíu casamento em 1918. Se mudaram diversas vezes e frequentemente viveram separados. Aparentemente ambos não acreditavam em uniões estáveis.

Sua saúde ficou muito debilitada quando contraiu tuberculose em 1917. Foi enquanto combatia essa doença em spas pela Europa afora, sofrendo uma hemorragia séria em 1918, que ela começou a escrever os trabalhos pelos quais seria melhor conhecida.

Katherine sofreu uma hemorragia pulmonar fatal em janeiro de 1923, após subir uma escada correndo para mostrar a Murry quão bem estava.

Sobre ela, Virginia Woolf disse: “A única escrita que eu invejei”.

Katherine Mansfield, esta escritora quase desconhecida dos brasileiros e que jamais publicou um romance, é, na minha humilde e leiga opinião, uma das maiores contistas que já existiu.

Rompendo com as regras tradicionais da escrita, em seus contos a trama é inexiste ou secundária. Prevalece sempre o momento, de simplicidade ingênua ou dramaticidade desconcertante. O poder de suas histórias está na atmosfera, na ambiência, no instante capturado de uma vida e traduzido com vigor e sentimento.

Ela jamais escrevia “sobre”. Mostrava ou sugeria. In a German Pension, por exemplo, ela declara seu desprezo pelos alemães sem usar essa palavra, ou outra parecida, uma única vez. Há apenas um grupo de pessoas reunidas ao redor de um almoço. No entanto, a antipatia, o antagonismo, pairam no ambiente. E assim é, quando ela fala de tristeza, dor, solidão ou contentamento.

Apenas o escritor de imenso talento é capaz de dominar o texto dessa forma . Mostrar sem dizer, sugerir sem contar.

E, assim como Virgínia Woolf, é uma escrita que também invejo.

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Este post faz parte da blogagem coletiva Vida de Escritor, promovida por Fio de Ariadne

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Acorda abre os olhos abre a janela. Venta como venta à beira mar, um sopro morno com cheiro de sol e laranjas. O céu é onipresença ofuscante de azul, papel de seda turquesa que embrulha o dia como um bombom. Sai de casa e areja a vida. Divide. Risadas, confidências, casos e um copo de cerveja.

Acorda abre os olhos abre a janela. Escuta o vozeirão de Zeus a avisar que o céu é líquido denso que escorre para a terra. Dia sem cor, escala de cinzas. Mundo chumbo cor de tristeza. A vida encolhe. Não divide, mas recolhe: aconchego, palavras, memórias.

Mora em São Paulo.

Adormece verão. Acorda inverno.

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Este post faz parte do projeto Vou de Coletivo!
Tema de setembro: Dormir aqui e amanhecer em outro lugar.